Sincronicidade

Mário acordou mais cedo que o habitual naquela manhã de sexta-feira, animado com a proximidade do final de semana. Cantarolou e preparou com esmero o café.

Maria despertou-se assustada e de imediato soube que estava atrasada para as obrigações do dia, mais um, na longa semana de trabalho que se encerrava, e que de tão intensa, se prolongaria ainda por metade do sábado. O café matinal precisou ser sacrificado.

Mário barbeou-se e aproveitou com deleite o banho morno. Escolheu uma roupa mais despojada que de costume para ir ao escritório. Sem pressa, leu o noticiário e verificou algumas contas. Tudo em ordem.

Maria correu ao chuveiro escaldante e depois secou o cabelo sem muito capricho. Como sempre hesitou na escolha das peças para vestir-se, em dúvida com as combinações de cores e estilos, essas coisas. Mesmo assim, consumiu metade do tempo normalmente dedicado a esse desafio diário. Maquiagem básica.

Mário assistiu com um sorriso a mulher e as crianças arrumando-se. Excepcionalmente, hoje, justamente hoje, ela as levaria à escola, aproveitando a coincidência, se podemos chamar assim, de ir para aqueles lados.

Maria evitou o berço da filha para não despertá-la após a noite inquieta. Sem tempo para manobrar os carros na garagem, pegou o do marido, estacionado atrás do seu, como faziam eventualmente nessas ocasiões de correria, para ganhar em seguida a rua, verificando a papelada para a reunião enquanto dirigia.

Mário entrou no carro e ligou o rádio. Calmo, ajustou o ar condicionado e verificou os espelhos. Saiu devagar, saboreando o prazer de dirigir, sentindo as ondulações do asfalto, a ergonomia do banco.

Maria precisava acelerar para evitar o constrangimento de chegar atrasada. Sem conseguir sincronizar o celular com o rádio, operava manualmente o aparelho para ouvir mensagens do grupo de trabalho. Sete ao todo. Aproveitou o semáforo fechado para ouvir a primeira. Sinal demorado, mas inesperadamente sem fila naquele horário. Estranho.

Mário pôs uma música, selecionada ao acaso: soou a Sonata nº 2, de Chopin, Opus 35, ao piano por Yundi Li. Cuidadoso, preferiu encostar o carro para mudar do rádio para o arquivo digital. Não era hábito, mas era cedo.

Maria atrapalhou-se com o segundo recado da lista de mensagens, uma voz feminina: “Já é tarde!”. O celular caiu ao chão.

Mário aumentou o volume. Acelerou para sentir o motor.

Maria perdeu alguns instantes tateando o piso.

Mário olhou para o retrovisor.

Maria avançou a preferencial.

Levados ao mesmo hospital, partiram deste mundo às 11 horas e 37 minutos. Não se viram, nunca saberão um do outro. E ainda assim, na dança silenciosa dos segundos, cada atraso, cada volta, cada etapa adiantada, cada história de vida, cada decisão banal, levou-os ao último encontro, como se predestinados para a mais perfeita das sincronias entre os acasos do cotidiano.

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A felicidade entre os anos que nascem e morrem

Ano Novo! Vida nova! Tempo de refletir e planejar, de agradecer e renovar as esperanças, essas coisas. Mas agora é diferente. A enfermidade da esposa abateu-lhe o ânimo para os festejos de fim de ano, com aquele típico estado de espírito que mistura o frenesi dos preparativos paras as ceias, os presentes, a escolha dos locais para as comemorações, a procura por amigos e familiares para as saudações de Réveillon, todas essas pequenas e gostosas emoções que rodeiam o período. Nada disso não se manifestou assim neste ano.

Na verdade aconteceu o contrário, pois nesses dias acompanhantes e pacientes ficam mais solitários do que nunca no hospitais. A calmaria dos corredores se intensifica quanto mais se aproximam os tradicionais festejos. No silêncio asséptico lembranças se amontoam e lamentos perdem a força diante da indiferença biológica das doenças terminais e da redução de visitantes e plantonistas em circulação. Tudo é espera, muito embora não se tenha por quem ou pelo que esperar.

Assim, Aristides e Lucélia passavam as horas que avançam inexoravelmente rumo à mudança de ano, alheias ao mundo e às vontades. Naquele instante ela acordou e sorriu com algum esforço, para logo em seguida voltar a dormir, a tempo ainda de sentir-se coberta de cuidados. Aristides desligou a televisão. Uma enfermeira passou para trocar o soro e desejou-lhe felicidades. Ele retribuiu com um gesto simpático, ainda que estivesse impossibilitado até de se imaginar no ano novo. Tudo em sua alma se concentra no agora. Absorto, olha para Lucélia adormecida e percebe mais uma vez que mesmo castigada pela doença, ela não perdera aquele semblante que o encantou um dia e que transcende as feições tangíveis, perfeitamente ajustado à sua índole cativante, que continua a transmitir sensações de paz e coragem, força e delicadeza.

Aproximou-se de seu rosto: “Feliz ano novo, meu amor”. Ela abriu os olhos, mas nada disse. Concentrou seus esforços em mirá-lo, para responder ao companheiro, sem palavras, sem lágrimas, sem revolta ou desespero, apenas com o olhar, “feliz ano novo, meu amor”. Não precisavam mais do que isso e sabiam, por experiência, que a felicidade não estava nas datas, mas em poder dividir um com o outro partes das suas existências.

Aristides segurou a mão de Lucélia. Ainda faltavam algumas horas para a meia-noite. Juntos, intimamente, conscientes de toda a cumplicidade que partilhavam, agradeceram a oportunidade de estar juntos mais uma vez no presente, testemunhando mais um ano que nasce e contabilizando na sua história outro que em breve assumirá lugar no seu lugar no passado. Um passado deles que o futuro, para onde quer que os leve, jamais poderá apagar.

Os “incomensais”

E os outros homens, que não foram mortos por estas pragas, nem assim se arrependeram das obras de suas mãos, parar não deixarem de adorar os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar.
Apocalipse 9:20

Desde os primeiros minutos do almoço Janira ignorou a presença dos comensais ao seu redor (os mesmos de sempre), absorta na urgência de se desconectar do mundo físico para verificar e responder, pelo celular, aos chamados das redes sociais. Curiosamente, numa sincronia aparentemente espontânea e harmônica, todos os demais pareciam empenhados na mesma tarefa, embora fossem completos estranhos uns para o outros, apesar da rotina.

A comida simples exalava um vapor inodoro, enquanto textos, vídeos e fotos eram conferidos em meio a sorrisos solitários. Olhares desconfiados eram fortuitamente lançados para fora da tela, em ato instintivo de preservação da privacidade. Raramente as espiadelas se cruzavam e quando isso acontecia não significava alguma intenção de comunicação direta. Era somente acaso. Respostas automatizadas, entremeadas de frases feitas e imagens, eram disparadas com profunda ânsia de aceitação. Janira conferia quase aflita a repercussão de suas postagens, à procura de consentimentos favoráveis. Ser ignorada ou pouco percebida era a pior das sensações, algo próximo ao completo isolamento. A compulsão a mantinha alheia inclusive daqueles que dividiam com ela a comprida no centro do refeitório. Não que isso fosse um problema, pois nada que dissesse respeito aos seus companheiros de almoço poderia interessar-lhe, todos igualmente de olhos baixos mirando a luminescência da tela lisa marcada de digitais gordurosas borradas no vidro.

O silêncio só era perturbado pelo barulho de talheres, por áudios reproduzidos em volume inadequado por usuários desprevenidos ou mesmo pelas eventuais gargalhadas histéricas de um ou de outro ao compartilharem vídeos e piadas, reação que no entender de Janira não passava de uma desagradável necessidade de chamar a atenção de estranhos, embora ninguém ali desejasse chamar a atenção dela ou de qualquer outra pessoa. De todo modo, aproveitava essas breves interrupções para depositar na boca, em duas ou três porções, o alimento sem gosto e assim voltar ao entretenimento.

O fato é que mesmo juntos, todos de ombros caídos, cabeças inclinadas e com polegares saltitando freneticamente, queriam passar mutuamente despercebidos. Por isso mesmo nada poderia ser mais chato que alguém disposto a puxar conversa, como o sujeito que decidiu, cutucando-lhe o braço, dividir considerações sobre as inconveniências do garçom (Murilo Eugênio, segundo o crachá), que às vezes interrompia os comensais com perguntas desnecessárias, como a opinião dos clientes sobre a qualidade do atendimento. Janira interrompeu sua imersão, elevou o rosto e esboçou um sorriso deliberadamente forçado, de lábios colados, para imediatamente voltar os olhos ao aparelho, de modo que seu, digamos assim, interlocutor, percebesse que agia tal e qual o garçom criticado. Disposto a compensar o aborrecimento que causara, o homem insistiu na abordagem e apresentou-se como Herbert. Mas o pior estava por vir. Janira ainda tentava digerir a perplexidade por tanta insensatez, quando foi surpreendida no instante seguinte, sem o menor sinal de alerta ou possibilidade de antecipação, por clientes do restaurante – dezenas – estapeando-a sem dó, gritando palavras surdas.

Além dos tapas, seu rosto era alvo de cuspes e água que pareciam afogá-la. Quis levantar-se, mas não conseguiu, o peso da agressão era incomensurável.  E para seu assombro, nas poucas chances de voltar a ficar de pé, Janira permaneceu imóvel, inteiramente paralisada, incapaz até de proteger-se com os braços. Sua vontade já não lhe produzia os efeitos desejados. Sentindo que morreria ali sem nunca saber a razão de tudo aquilo, ela percebeu todos retornarem aos seus lugares para a sobremesa, embora os pratos principais permanecessem intocados, desmobilizados e agora novamente isolados uns dos outros, em disciplinado silêncio. Não, definitivamente não poderiam ser chamados de comensais, mas de “incomensais” (peço licença para a expressão inexata), com o prefixo latino designando-lhes a negação de sua natureza social. Eram loucos, não havia outra sentença.

Janira tentou escapar por um corredor estreito que havia reparado antes e que levava a uma sala sem janelas. Quis trancar-se em busca de proteção, mas o cômodo não tinha portas. Ao voltar pelo mesmo caminho, esbarrou em Murilo, o garçom, que em vão tentou ajudá-la, porém, sem que som algum saísse de sua boca. Deixou-o. Desesperada para fugir daquele pesadelo, perdida num labirinto de corredores imensos sem saída, espantou-se ao notar que retornara ao salão central, que por sua vez, para sua incredulidade, estava vazio. Nada. Nem comensais, nem pratos, nem loucos, nada.

Nesse momento seu celular começou a vibrar ininterruptamente. Eram os agressores (ou seriam salvadores?) de minutos atrás solicitando-lhe amizade em diversas redes. Desorientada, Janira buscou o céu e viu o teto do restaurante escurecer e logo em seguida clarear-se numa profusão de luzes difusas e o chão também começou a acender-se em milhares de pontos luminosos. Mirando mais uma vez o alto, ela distinguiu uma imagem gigantesca ganhando nitidez aos poucos. Viu então a si mesma na tela que se projetava desde cima, os dedos maiores do que a cabeça em razão da perspectiva, como se digitasse freneticamente algo no vazio, de ombros caídos e expressão vazia no rosto.

A perseguição

No início a mancha no chão resultava da ausência de luz, obrigada a contornar meu corpo para involuntariamente projetar uma silhueta leve e escura. Assim é que conhecia a sombra que me acompanhara por toda a vida, casual prolongamento de mim a variar de tamanho e intensidade, mas nunca de natureza. Até ai tudo bem.

Certo dia notei um pequeno atraso em seus movimentos, muitíssimo curto, porém o suficiente para alterar a esperada sincronia entre causa e efeito. Corpo e sombra dançavam em descompasso, como acompanhassem uma mesma música, só que em tempos diferentes, quando o normal seria que estivessem em perfeita harmonia com os compassos da melodia. Reparei essa irregularidade singular quando descia uma escadaria sob a luz de lâmpadas fluorecentes, já tarde da noite, após expediente cansativo no trabalho. (Não uso elevadores para evitar os miasmas e odores exalados no entra e sai de desconhecidos). Percebi que ao passar de um lance de degraus para outro, a sombra demorava a vir comigo, como esperasse por alguém ou não quisesse incomodar minha solidão. E quanto mais rápido eu seguia maior era a distância entre nós, mas jamais o bastante para nos perdermos um do outro. Curiosamente, vencidos os quatro andares do trajeto, a sombra, alcançado-me finalmente no pátio onde todos poderiam testemunhar o fenômeno atípico e quiçá único, alinhava-se perfeitamente aos meus movimentos, para seguirmos recompostos e simultâneos dali por diante, embora mutuamente desconfiados.

Sombras são dissimuladas, eu sei. Aos olhos alheios, é mero espelho, mas na minha intimidade ela passara a viver autônoma. O problema é que nunca houve espectadores para comprovar o milagre. O que desejava o espectro agindo assim? Algumas vezes dei meia volta para perguntar-lhe, mas aí a sombra desaparecia, tímida, fundido-se com alguma parede, escapando em sarjetas, subindo telhados. Pressentia em certos momentos que o borrão (acinzentado ou preto a depender da iluminação) desejava avisar-me sobre algo – um perigo, talvez -, para depois perceber uma hesitação misteriosa que o impedia de agir nesse sentido. Quem sabe não lhe fosse permitido quebrar certas regras. Noutras ocasiões notava certo ar maligno na própria nódoa flutuante, afinal, aquilo definitivamente não era normal e eu deveria, portanto, redobrar as atenções.

Certa feita a sombra não me acompanhou quando virei uma rua vazia. Rapidamente corri para ver se a surpreendia na outra calçada, mas ao chegar no ponto de convergência entre as ruas, fui vítima de um assalto que me custou o relógio. Teria sido uma armadilha? De outra, ao cumprimentar um conhecido distante enquanto esperava o semáforo abrir para os pedestres, reparei a sombra insinuando-se para o meu lado esquerdo. Instintivamente, afastei-me dois passos para alinhar-me com ela, o que bastou para livrar-me de ser atingido por uma bicicleta sem freios. Coincidência? Vai saber… Já não perguntava mais a nenhum interlocutor se este tinha reparado nalgum vulto, para não parecer, aos outros, um perturbado. Passei, resignadamente, a viver tudo em silêncio.

O fato é que essa perseguição que violava minha mais íntima privacidade acabou por afetar meu espírito. A ansiedade decorrida dessa perseguição, a constância dessa sensação de ser assim observado a qualquer instante, de antever recados misteriosos nas cenas mais comuns, foi aos poucos me consumindo. Comecei a ver na sombra certas ondulações que me pareciam o esboço de um sorriso zombeteiro. Sendo isso uma rematada loucura, senti vergonha de pensar desse modo incoerente, o que não me afastava, infelizmente, daquela impressão de parecer-me profundamente ridículo.

Um sentimento de suspeita passou a me acompanhar por todos os lugares, fosse no trabalho, no banheiro, no carro ou em casa. Por onde eu andasse, a sombra me perseguia com todos os seus efeitos ; onde houvesse uma réstia de luz, ela se projetava autônoma, livre e opressora, espiando cada movimento meu. Aquela presença virtual já me afetava a matéria real e somente no escuro eu encontrava paz. E assim fechei os olhos para viver na escuridão eterna. E nunca mais os abri.

Esperança

vultoA dor no peito o surpreendeu por lembrá-lo de que emoções podem repercutir com intensidade física. A sensação de aperto no coração, o ar escapando em golfadas, as mãos suadas, as lágrimas, os lábios comprimidos e os dentes cerrados, rangendo, pancadas no coração e espasmos na garganta, foram a expressão da desordem física que aturdiu Jonas, desestabilizado momentaneamente por uma mistura de medo e remorso. Terremoto interno cuidadosamente encoberto pelo olhar distante e quase indiferente de quem parece apenas ver o tempo passar. O cigarro ajudava a disfarçar os suspiros, como lera certa vez num livro, sem lembrar o autor.

Ao se dar conta desse estado de perturbação, Jonas procurou cadenciar a expiração, exalando o ar aos poucos, com o que passou a reduzir também o ritmo da inspiração. Sentindo golpes internos no peito ofegante, pôs-se a contar os batimentos cardíacos na tentativa de induzir um recuo que permitisse um restabelecimento mínimo da razão, diminuindo pouco a pouco a velocidade da contagem, enquanto aumentava a pausa entre os números: 1…, 2…, 3…

Nesse instante, com a ansiedade entrando em declínio, lembrou-se dela com ternura. Não era sua intenção que tudo terminasse assim. Conheceram-se ainda na infância, mas foi na adolescência que a paixão os uniu com maior intensidade.

A respiração voltou a acelerar um pouco e lágrimas represaram-se novamente. Com raiva, Jonas bufou intimamente: “controle-se!” A lembrança se fez outra vez. Durante muito tempo foram parceiros, ele e ela. Sonharam juntos. A impossibilidade de retroagir para avisar a si mesmo do perigo que corriam, apenas aumenta a angústia, ou a lástima, aquela aflição contida que vem da certeza da imutabilidade do passado. Não há mais o que ser feito e reparações são agora impossíveis. Pior ainda é descobrir que tudo poderia ter sido diferente. Faltou cuidado. Martirizado pelo próprio sofrimento, Jonas se perguntava: “Como você não percebeu?”.

Foram felizes os momentos embalados por convicções idealistas que puderam dividir. Mas ela, antes tão presente e constante, foi sumindo aos poucos, tangida a espaços cada vez menores, encurralada até sufocar mansamente, sem reagir, sem lutar, em pungente solidão. Expansiva no início, de espontaneidade cativante, ela encorajava e contagiava aquele jovem em busca de si no mundo. Morreu devagar, desidratada, esfomeada, anêmica. A alegria de outrora cedeu lugar a um comodismo mórbido, que nele se instalou com ares de serenidade, de amadurecimento, mas que na verdade era apenas disfarce para o egoísmo e a tristeza. Tacitamente, sem despedidas, perceberam ainda antes do fim que não conseguiam sintonizar na mesma vibração. Aliás, Jonas já não sentia o coração vibrar por nada, a não ser por ocasião do rápido sobressalto que a pouco experimentara, ao perceber a profundidade daquela perda, para depois voltar ao seu natural estado de prostração.

O incômodo físico cessou.

Durante muito tempo Jonas procurou dopar a consciência, correr riscos, experimentar novidades, fugir para compensar a sensação desoladora de nem sequer intuir o sentido do existir. Não conseguiu.

Esperança é vida. Esperança morreu, sem rir ou chorar, apenas em silêncio. A esperança não espera.

Memórias

Concentrado na leitura de uma reportagem sobre as fraudes financeiras de um ex-ídolo infantil de muito sucesso no passado, Matias foi interrompido pela loira alta de sorriso largo que sem cerimônias disparou:

– Cadê a cota para a nossa confraternização?
– Como?
– Olha pessoal! — disse a loira dirigindo-se aos demais na sala ampla — , o Matias se fazendo de bobo para não pagar a cota da nossa confraternização!

E todos começaram um burburinho, entre risadas e em tom de brincadeira, deixando escapar propositalmente um “paga logo, miserável”, “tem que ser o dobro” ou “deixa de ser muquirana, Matias!”

O estranho é que Matias não conhecia nenhuma dessas criaturas que, pelo visto, eram seus colegas de trabalho.

– Quanto é mesmo?
– A cota combinada, ora! — Ela percebera o estado de confusão de Matias, atribuindo essa perturbação à leitura que instantes atrás o consumia.

Confuso, ele deu a única nota que tinha na carteira. Uma graúda.

– O Matias abriu a mão! — comemorou a loira com uma piscadela, passando adiante com a cobrança. Despediu-se completando: — Você vai comigo, certo? Te espero no estacionamento.

Matias tentou refazer mentalmente as últimas horas. Nada. Tentou ampliar o corte temporal a procura de lembranças e… mais uma vez nada! Nem infância nem adolescência, pais, irmãos ou família, zero. Com muito esforço lembrou-se do endereço da casa onde morava, e mesmo assim, só conseguia vislumbrar mentalmente a fachada, sem visualizar os cômodos.

Olhou para o lado e um sujeito o alertou:

– Cuidado com a Marilda. Você está se arriscando.
– Não se preocupe — Matias buscou o nome do seu interlocutor no crachá, mas não conseguiu ler direito. E completou, para disfarçar a insegurança: – Estou tranquilo.
– Sei. Não quero parecer intrometido, mas sabe como é por aqui, tudo pode ser usado contra você — disse o sujeito em sussurros, para emendar logo depois: – Principalmente agora, com as mudanças. Melhor não arriscar.
– Verdade — respondeu Matias burocraticamente, perdido entre assombros.

Em seguida foi ao banheiro. Olhou no espelho para conferir a própria fisionomia e esta não lhe parecia estranha. Conferiu as faces e o cabelo. Sozinho, procurou compreender o que lhe acontecia. Evidentemente padecia de amnésia, porém, gozava de perfeita saúde, aparentemente. Não havia sinais de acidentes, manchas, marcas ou cicatrizes; não tinha remédios nos bolsos, o que sugeria não haver problemas crônicos.

Voltou ao computador e foi pesquisar sobre si. Descobriu que trabalhava numa empresa de contabilidade e que respondia a um processo por crime contra o sistema financeiro, sem maiores detalhes, pois a ação corria em segredo de justiça. Nas redes sociais, era reservado e não falava de si. Concluiu, pelo ambiente, ter boa posição na firma e, ao pensar em dinheiro, viu subitamente diante dos olhos seus dados bancários e senhas, perfeitamente associadas às instituições de cada depósito. Conferiu nos sites relacionados e constatou que tudo era verídico. A memória estava perfeita nessa área. Matias então decidiu ir para casa.

No estacionamento, sem saber para que lado ir, foi novamente abordado por Marilda:

– Finalmente, atrasado! Vamos logo que a confraternização já começou! Vão estranhar se você não parecer. Tudo tem que parecer perfeito, rotina.

No carro, de carona, Matias percebeu o esforço da mulher em construir alguma intimidade, mas a conversa não ultrapassou o superficial, até que ela disse:

– Chega um momento em que a gente não se lembra mais de onde veio ou quem somos. Isso já aconteceu com você?
– Sim! Como você sabe?
– Não sei de muita coisa, mas sei que você é um grande candidato ao tédio no futuro. O tédio é perigoso. Por isso, nada de hesitações. Vamos até o fim. Lembre do que você passou, do que nós passamos. Isso o manterá firme. Depois poderemos nos esquecer do que quisermos.
– Nunca havia pensado nisso. — Matias estava mais introspectivo que de costume. – Será que o excesso de trabalho ou a falta de novidades podem gerar alguma espécie de estresse mental nas pessoas? Será que podemos simplesmente apagar da memória tudo o que nos pareça constrangedor?
– Talvez —respondeu Marilda com aparente indiferença, para em seguida retomar a linha anterior de argumentação: – a ansiedade também pode atrapalhar. Ainda mais agora, com os boatos sobre as mudanças.
– Sim, as mudanças…

No semáforo Marilda colocou uma das a mãos sobre o joelho de Matias, pressionando as pontas dos dedos em círculos breves e cavando os olhos em seu rosto. Ele então percebe que a intimidade não é forçada.

– Você está bem? Preocupado com o processo?
– Não, não. Estou com dificuldades de lembrar algumas coisas e…
– Vai dar tudo certo, Matias. Repita apenas o que o doutor Magalhães instruiu. Ninguém será preso. Depois de amanhã, toda essa história será uma lembrança. Será como se nunca tivesse acontecido.
– Nunca… Lembranças…
– Isso. E mentir não é problema para alguém na sua posição. Ou você agora tem escrúpulos?

Matias quis se ofender, mas preferiu a prudência.

– Não, não.
– É por isso que admiramos você, querido.

Ele sorriu enquanto pensava sobre quem seria esses na terceira pessoal do plural que o admiram. Existem outras pessoas intrincadas nessa conversa, concluiu, sem fazer ideia de quem sejam.

Na confraternização, aos poucos Matias recuperou algumas recordações, nada pessoal, somente lampejos que todavia pareciam ligados por uma cadeia lógica de associações. Uma passagem de avião, somente ida, para algum paraíso fiscal. Documentos, passaportes, dupla cidadania, dinheiro em espécie, uma sequência de imagens que sugeria uma ordem planejada, talvez um roteiro, uma agenda. De repente a lembrança de um horário o pôs em alerta. A viagem seria nesta madrugada, daqui a poucas horas. Ao tentar sair sem que ninguém percebesse, Marilda o abordou no corredor do restaurante.

– Você já vai?
– Sim. Tenho que estar preparado.
– Faz sentido. Deixa eu te acompanhar até o táxi.

Andaram até a esquina. A loira esperou que Matias entrasse no carro, olhou para o lados e com lascívia beijou-lhe a boca.

– Você merece — disse nervosa.

Ele nunca mais a viu. Dias depois, na praia distante, entediado como nunca, profundamente enfadado de si, Matias leu no jornal que o ídolo infantil das fraudes financeiras morrera. Teria sido um suicídio, mas suspeitas sobre a esposa, que aparecia belíssima no foto vestida de viúva, não estavam descartadas. Era loira a mulher. E alta e elegante. Era Marilda.

Matias bebericou o drinque e ponderou nostálgico consigo mesmo:

“Essa é a lembrança mais próxima que tenho da criança que fui um dia. O resto sumiu. É como se nada mais existisse, nada tivesse acontecido”.

Soterrado

areiaComo pude ignorar assim o óbvio? Certo dia, cismando sem maiores pretensões, ainda pela manhã ensolarada, fui pego de surpresa por um pensamento impactante de indiscutível importância, chave para compreender certos aspectos da vida que até então me eram inexplicavelmente despercebidos.

De tão natural e lógica, causou-me espanto a demora (anos, décadas) dessa revelação. Em contrapartida, uma vez acesa a sua centelha inicial, a dinâmica subsequente das conclusões em cadeia que se formaram bastou para impelir em meu espírito uma instigante marcha em busca de novas descobertas. Tratou-se, portanto, de um processo aparentemente irrefreável.

A profusão de variantes que se descortinaram naquele momento e toda gama de possibilidades surpreendentes causaram-me uma ansiedade que pedia, como condição para futuras ações, organização e cadência, a fim de direcionar melhor o senso de urgência que me afligia. Era preciso, para efeito de posse, registrar o acontecido. Cheguei a pensar em anotar os diversos tópicos que se amontoavam nesse instante de catarse para retomá-los à noite, mas concluí que não precisava disso, já que tudo o que eu havia pensado apresentava-se como parte de mim, inseparável, inerente ao que me tornara a partir dali.

Voltei aos afazeres cotidianos do trabalho e a mecânica da rotina se impôs como anestésico domador da consciência excitada. Mais tarde eu continuaria a pensar, ponderei.

À noite, saciada a fome e despojado da maioria das obrigações domésticas, livre da carga de responsabilidades feita de prazos e metas profissionais, busquei retomar o pensamento. Porém, não há como explicar, nada me veio à mente. Deus! Como? Seria apenas uma impressão errada sobre algo no fundo dispensável? Não, não! Era importante, eu sei! Mais do que precioso, era fundamental para a construção de uma nova etapa, o novo rumo para uma vida menos ordinária! Traído pela memória, um vazio se instalou em mim e o pensamento acabou engolido pela frustração, perdido em algum lugar lá no fundo, soterrado pelas coisas banais e sem importância.