Os incomensais

E os outros homens, que não foram mortos por estas pragas, nem assim se arrependeram das obras de suas mãos, parar não deixarem de adorar os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar.
Apocalipse 9:20

Desde os primeiros minutos do almoço, como acontecia todos os dias exatamente ao meio-dia e meia, Janira ignorou a presença dos comensais, os mesmos de sempre, apressada em se desconectar de todos para conectar-se aos chamados das redes sociais pelo celular. O intervalo no trabalho é curto para o passatempo virtual; por isso um sentimento de urgência a impelia nessa obrigação prazerosa.

A comida simples exalava um vapor estranhamente inodoro, enquanto vídeos e fotos eram carregados e espiados em meio a sorrisos solitários. Olhares desconfiados eram repentinamente lançados a esmo para fora da tela para vigiar  se privacidade estava devidamente preservada. Respostas automatizadas de aprovação, com frases feitas e desenhos infantilizados eram disparadas como reforço positivo, logos após Janira conferir ansiosa se as suas postagens igualmente recebiam consentimento favorável dos seus contatos. Ser ignorada, ou pouco percebida, era a pior das sensações. A compulsão pela socialização eletrônica, à distância, a mantinha afastada dos demais espalhados ao redor da mesa comprida. Na verdade, a maioria também aproveitava aquele instante para checar seus próprios celulares. Isso não era problema algum, pois não interessava a ela nada que dissesse respeito aos seus companheiros de almoço, todos com os olhos baixos mirando a luminescência da tela lisa, marcada de digitais.

O isolamento psíquico geral só era quebrado por pequenos estímulos sonoros, como o barulho mais forte de talheres contra pratos, algum áudio tocado em volume alto por usuários desprevenidos, ou mesmo pelas eventuais gargalhadas histéricas de um ou outro ao compartilharem vídeos e piadas, que no entender de Janira não passava de uma desagradável necessidade de chamar a atenção de estranhos. Nesses momentos, aproveitava para depositar na boca, em duas ou três porções, o alimento sem gosto, mecanicamente consumido, para em seguida voltar ao entretenimento.

O fato é que mesmo juntos, todos de ombros caídos e cabeças inclinadas, com polegares saltitando freneticamente, queriam o isolamento, sem ver, ouvir ou falar diretamente uns com os outros. Nada pior nessas horas que a chegada de um conhecido disposto a puxar conversa. Uma voz distante a interrompeu. Era o garçom – Murilo Eugênio, segundo o crachá – indagando-lhe algo sobre a satisfação dela com o serviço e a comida. Janira maneou a cabeça, virou o aparelho de lado e esboçou um sorriso de lábios colados. Logo em seguida, cutucando-lhe o braço, um comensal vizinho resolveu dividir com ela considerações sobre aquela interrupção desnecessária, sem parecer atinar para o fato de que fazia a mesmíssima coisa. Educadamente, Janira foi sucinta na resposta, concordando e voltando os olhos para o celular, como a indicar que desejava não prosseguir com a conversação. Mas o sujeito, que por razão alguma espontaneamente se apresentou como Herbert, insistia em atrapalhar a Janira, que no instante seguinte experimentou o início de uma forte palpitação, reflexo do instinto de preservação disparado pelo pavor de ver os outros clientes do restaurante estapeando-a sem dó, gritando palavras surdas, enquanto Herbert apontava para ela.

Além dos tapas, seu rosto foi banhado por água arremessada de copos brancos e suas bochechas espremidas por dedos de aço. Quis levantar-se, mas não conseguiu e, para o seu assombro, inteiramente paralisada, não podia nem sequer proteger-se com os braços ou tentar afastar a pontapés a turba ensandecida, sem que a vontade produzisse efeitos práticos. Sentindo que morreria ali sem nunca saber a razão de tudo aquilo, Janira percebeu que todos cessaram a algazarra e dali se afastaram. Jogada ao chão, viu todos retornarem aos seus lugares para a sobremesa, embora os pratos principais permanecessem intocados, exalando vapor inodoro, em silêncio, isolados uns dos outros, a ignorar sua presença ofegante e ignorando-se mutuamente. Não poderiam ser chamados de comensais, mas de incomensais, com o prefixo latino designando a negação de sua natureza social. Eram loucos, não havia outra sentença.

Janira tentou correr para fora do recinto por um corredor estreito que nunca percebera antes e que levava a uma sala sem janelas. Quis trancar-se em busca de proteção, mas o cômodo não tinha portas. Ao voltar pelo mesmo caminho, esbarrou em Murilo, o garçom, que tentou em vão ajudá-la, deixado para trás. Desesperada para escapar daquele pesadelo, perdida num labirinto de corredores imensos sem saídas, espantou-se notar que retornara ao salão central, que para sua incredulidade estava vazio.

Nesse momento o celular começou a vibrar ininterruptamente. Eram seus agressores (ou seriam salvadores?) de minutos atrás solicitando-lhe amizade em diversas redes. Desorientada, Janira buscou o céu e viu o teto do restaurante escurecer e logo em seguida clarear-se com uma luz difusa e o chão também começou a acender-se em milhares de pontos luminosos. Mirando mais uma vez o alto, Janira pode perceber uma imagem desfocada ganhando aos poucos nitidez. Viu a si mesma naquela tela projetada desde cima, como se digitasse algo no vazio, de ombros caídos e expressão vazia no rosto.

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O caçador de metáforas

Roy (soberba atuação de Rutger Hauer) e Tyrell: criatura e criador

Na expectativa por Blade Runner 2049 (já em cartaz), decidi assistir novamente Blade Runner – O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott. É um espetáculo.

Como toda obra que sobrevive no tempo na condição de referência, ao revê-lo novas impressões me tocaram. Para não perder tempo (as resenhas são infinitas) vamos ao ponto: os replicantes, máquinas feitas à imagem e semelhança dos homens, são, naturalmente, metáforas dos humanos, e seu tempo de funcionamento, uma alegoria do viver. O problema é que os replicantes funcionavam por apenas quatro anos. Na verdade, o problema mesmo é que humanos também lidam com a finitude. Cinquenta, 70 ou 100 anos, são apenas instantes diante do tempo eterno de Deus, nosso Criador.

O replicante Roy, sempre sarcástico com seu sorriso nervoso a disfarçar o medo do fim, vai ao encontro de seu criador, o empresário e cientista Tyrell, em busca de mais tempo, de mais… vida! O criador então explica à criatura que não pode alterar a criação. “Você foi criado da melhor forma possível”, justifica, para em seguida tentar consolar a aflição de seu “filho”:

Tyrell : “A luz que brilha duas vezes mais se apaga na metade do tempo, e você brilhou muito, muito intensamente, Roy. Olhe para você. Você é o filho pródigo. Você é um prêmio e tanto!”

Roy :  “Eu fiz coisas questionáveis”.

Tyrell: “E também coisas extraordinárias. Delicie-se com o seu tempo”.

Em seguida, frustrado, com raiva, inconformado, Roy mata Tyrell com as próprias mãos.

Roy é a humanidade e Tyrell é Deus. Quantos, revoltados com o inevitável, não buscam matar Deus a seu modo? Com ideologias, cegueira, tecnologia, hedonismo e até com religiões?

Ao perceber o fim iminente, Roy lamenta a perda e o esquecimento de sua breve existência “como lágrimas na chuva”. Um metáfora digna de quem se dedica com paixão caçar a si mesmo.

PS. Dizem que o novo Blade supera o antigo. A conferir. Será o raro caso da criatura se impondo ao criador.

A perseguição

No início a mancha no chão resultava da ausência de luz, obrigada a contornar meu corpo para involuntariamente projetar uma silhueta leve e escura. Assim é que conhecia a sombra que me acompanhara por toda a vida, casual prolongamento de mim a variar de tamanho e intensidade, mas nunca de natureza. Até ai tudo bem.

Certo dia notei um pequeno atraso em seus movimentos, muitíssimo curto, porém o suficiente para alterar a esperada sincronia entre causa e efeito. Corpo e sombra dançavam em descompasso, como acompanhassem uma mesma música, só que em tempos diferentes, quando o normal seria que estivessem em perfeita harmonia com os compassos da melodia. Reparei essa irregularidade singular quando descia uma escadaria sob a luz de lâmpadas fluorecentes, já tarde da noite, após expediente cansativo no trabalho. (Não uso elevadores para evitar os miasmas e odores exalados no entra e sai de desconhecidos). Percebi que ao passar de um lance de degraus para outro, a sombra demorava a vir comigo, como esperasse por alguém ou não quisesse incomodar minha solidão. E quanto mais rápido eu seguia maior era a distância entre nós, mas jamais o bastante para nos perdermos um do outro. Curiosamente, vencidos os quatro andares do trajeto, a sombra, alcançado-me finalmente no pátio onde todos poderiam testemunhar o fenômeno atípico e quiçá único, alinhava-se perfeitamente aos meus movimentos, para seguirmos recompostos e simultâneos dali por diante, embora mutuamente desconfiados.

Sombras são dissimuladas, eu sei. Aos olhos alheios, é mero espelho, mas na minha intimidade ela passara a viver autônoma. O problema é que nunca houve espectadores para comprovar o milagre. O que desejava o espectro agindo assim? Algumas vezes dei meia volta para perguntar-lhe, mas aí a sombra desaparecia, tímida, fundido-se com alguma parede, escapando em sarjetas, subindo telhados. Pressentia em certos momentos que o borrão (acinzentado ou preto a depender da iluminação) desejava avisar-me sobre algo – um perigo, talvez -, para depois perceber uma hesitação misteriosa que o impedia de agir nesse sentido. Quem sabe não lhe fosse permitido quebrar certas regras. Noutras ocasiões notava certo ar maligno na própria nódoa flutuante, afinal, aquilo definitivamente não era normal e eu deveria, portanto, redobrar as atenções.

Certa feita a sombra não me acompanhou quando virei uma rua vazia. Rapidamente corri para ver se a surpreendia na outra calçada, mas ao chegar no ponto de convergência entre as ruas, fui vítima de um assalto que me custou o relógio. Teria sido uma armadilha? De outra, ao cumprimentar um conhecido distante enquanto esperava o semáforo abrir para os pedestres, reparei a sombra insinuando-se para o meu lado esquerdo. Instintivamente, afastei-me dois passos para alinhar-me com ela, o que bastou para livrar-me de ser atingido por uma bicicleta sem freios. Coincidência? Vai saber… Já não perguntava mais a nenhum interlocutor se este tinha reparado nalgum vulto, para não parecer, aos outros, um perturbado. Passei, resignadamente, a viver tudo em silêncio.

O fato é que essa perseguição que violava minha mais íntima privacidade acabou por afetar meu espírito. A ansiedade decorrida dessa perseguição, a constância dessa sensação de ser assim observado a qualquer instante, de antever recados misteriosos nas cenas mais comuns, foi aos poucos me consumindo. Comecei a ver na sombra certas ondulações que me pareciam o esboço de um sorriso zombeteiro. Sendo isso uma rematada loucura, senti vergonha de pensar desse modo incoerente, o que não me afastava, infelizmente, daquela impressão de parecer-me profundamente ridículo.

Um sentimento de suspeita passou a me acompanhar por todos os lugares, fosse no trabalho, no banheiro, no carro ou em casa. Por onde eu andasse, a sombra me perseguia com todos os seus efeitos ; onde houvesse uma réstia de luz, ela se projetava autônoma, livre e opressora, espiando cada movimento meu. Aquela presença virtual já me afetava a matéria real e somente no escuro eu encontrava paz. E assim fechei os olhos para viver na escuridão eterna. E nunca mais os abri.

Esperança

vultoA dor no peito o surpreendeu por lembrá-lo de que emoções podem repercutir com intensidade física. A sensação de aperto no coração, o ar escapando em golfadas, as mãos suadas, as lágrimas, os lábios comprimidos e os dentes cerrados, rangendo, pancadas no coração e espasmos na garganta, foram a expressão da desordem física que aturdiu Jonas, desestabilizado momentaneamente por uma mistura de medo e remorso. Terremoto interno cuidadosamente encoberto pelo olhar distante e quase indiferente de quem parece apenas ver o tempo passar. O cigarro ajudava a disfarçar os suspiros, como lera certa vez num livro, sem lembrar o autor.

Ao se dar conta desse estado de perturbação, Jonas procurou cadenciar a expiração, exalando o ar aos poucos, com o que passou a reduzir também o ritmo da inspiração. Sentindo golpes internos no peito ofegante, pôs-se a contar os batimentos cardíacos na tentativa de induzir um recuo que permitisse um restabelecimento mínimo da razão, diminuindo pouco a pouco a velocidade da contagem, enquanto aumentava a pausa entre os números: 1…, 2…, 3…

Nesse instante, com a ansiedade entrando em declínio, lembrou-se dela com ternura. Não era sua intenção que tudo terminasse assim. Conheceram-se ainda na infância, mas foi na adolescência que a paixão os uniu com maior intensidade.

A respiração voltou a acelerar um pouco e lágrimas represaram-se novamente. Com raiva, Jonas bufou intimamente: “controle-se!” A lembrança se fez outra vez. Durante muito tempo foram parceiros, ele e ela. Sonharam juntos. A impossibilidade de retroagir para avisar a si mesmo do perigo que corriam, apenas aumenta a angústia, ou a lástima, aquela aflição contida que vem da certeza da imutabilidade do passado. Não há mais o que ser feito e reparações são agora impossíveis. Pior ainda é descobrir que tudo poderia ter sido diferente. Faltou cuidado. Martirizado pelo próprio sofrimento, Jonas se perguntava: “Como você não percebeu?”.

Foram felizes os momentos embalados por convicções idealistas que puderam dividir. Mas ela, antes tão presente e constante, foi sumindo aos poucos, tangida a espaços cada vez menores, encurralada até sufocar mansamente, sem reagir, sem lutar, em pungente solidão. Expansiva no início, de espontaneidade cativante, ela encorajava e contagiava aquele jovem em busca de si no mundo. Morreu devagar, desidratada, esfomeada, anêmica. A alegria de outrora cedeu lugar a um comodismo mórbido, que nele se instalou com ares de serenidade, de amadurecimento, mas que na verdade era apenas disfarce para o egoísmo e a tristeza. Tacitamente, sem despedidas, perceberam ainda antes do fim que não conseguiam sintonizar na mesma vibração. Aliás, Jonas já não sentia o coração vibrar por nada, a não ser por ocasião do rápido sobressalto que a pouco experimentara, ao perceber a profundidade daquela perda, para depois voltar ao seu natural estado de prostração.

O incômodo físico cessou.

Durante muito tempo Jonas procurou dopar a consciência, correr riscos, experimentar novidades, fugir para compensar a sensação desoladora de nem sequer intuir o sentido do existir. Não conseguiu.

Esperança é vida. Esperança morreu, sem rir ou chorar, apenas em silêncio. A esperança não espera.

Memórias

Concentrado na leitura de um artigo sobre as fraudes financeiras de um ex-ídolo infantil de muito sucesso no passado, Matias foi surpreendido pela loira alta que o interrompeu com um largo sorriso e sem cerimônias:

– Cadê a cota para a nossa confraternização?
– Como?
– Olha pessoal! – disse a loira em voz alta, dirigindo-se aos demais na sala ampla -, o Matias se fazendo de bobo para não pagar a cota da nossa confraternização!

E todos começaram um burburinho, entre risadas, deixando escapar um pouco mais alto, de propósito, um “paga logo, miserável”, “tem que ser o dobro” ou “deixa de ser muquirana, Matias!”

O estranho é que Matias não conhecia nenhuma dessas criaturas. Pelo visto, eram seus colegas de trabalho.

– Quanto é mesmo?
– O que você puder, ora!

Deu a única nota que tinha na carteira. Uma graúda.

– O Matias abriu a mão! – comemorou a loira com uma piscadela, passando adiante com a cobrança. Despediu-se completando: – Você vai comigo, certo? Te espero no estacionamento.

Matias tentou refazer mentalmente as últimas horas. Nada. Tentou ampliar o corte temporal na procura por lembranças e… nada! Nem infância nem adolescência, pais, irmãos ou família, nada apareceu. Com muito esforço lembrou-se do endereço da casa onde morava, e mesmo assim, só vislumbrava mentalmente a fachada.

Olhou para o lado e o sujeito o alertou:

– Cuidado com a Marilda. É chegada a um escândalo.
– Não se preocupe – Matias buscou o nome de seu interlocutor no crachá, mas não conseguiu ler direito. – Estou tranquilo.
– Sabe como é por aqui, tudo pode ser usado contra você – sussurrou o sujeito.

E completou:

– Principalmente agora, com as mudanças. Melhor não arriscar.
– Verdade – respondeu burocraticamente, perdido entre assombros.

Matias levantou-se, foi ao banheiro. Olhou no espelho para conferir a própria fisionomia e esta não lhe parecia estranha. Conferiu as faces e o cabelo. Sozinho, procurou compreender o que lhe acontecia. Evidentemente padecia de amnésia, porém, gozava de perfeita saúde, aparentemente. Não havia sinais de acidentes, manchas, marcas ou cicatrizes; não tinha remédios nos bolsos, o que sugeria não haver problemas crônicos.

Voltou ao computador e foi pesquisar sobre si. Descobriu que trabalhava numa empresa de contabilidade e respondia a um processo por crime contra o sistema financeiro, que corria em segredo de justiça. Nas redes sociais, era reservado. Concluiu ter boa posição na firma e, logo em seguida, ao pensar em dinheiro, viu em sua mente seus dados bancários e senhas. Conferiu nos sites relacionados. Tudo em ordem, memória perfeita nessa área. Matias então decidiu ir para casa.

No estacionamento, a loira de nome Marilda o chamou:

– Finalmente, atrasado! Vamos logo que a confraternização já começou! Vão estranhar se você não parecer.

No carro, de carona, Matias percebeu o esforço da mulher em construir alguma intimidade, mas a conversa não ultrapassou o superficial, até que ela disse:

– Chega um momento em que a gente não se lembra mais de onde veio ou quem somos. Isso aconteceu com você?
– Sim! Como você sabe?
– Não sei de muita coisa, mas sei que você é um grande candidato ao tédio no futuro. O tédio é perigoso.
– Nunca havia pensado nisso. Será que o excesso de trabalho ou a falta de novidades podem gerar alguma espécie de estresse mental?
– Talvez. A ansiedade também pode atrapalhar. Ainda mais agora, com os boatos sobre mudanças.
– Sim, as mudanças.

No semáforo, Marilda coloca a mão sobre o joelho de Matias e crava os olhos em seu rosto. Ele então percebe que a intimidade não é forçada.

– Você está bem? Preocupado com o processo?
– Não, não. Estou com dificuldades de lembrar algumas coisas e…
– Vai dar tudo certo, Matias. Repita apenas o que o doutor Magalhães instruiu. Ninguém será preso. Depois de amanhã, toda essa história será uma lembrança. Será como se nunca tivesse acontecido.
–  Nunca. Lembranças.
– Isso. E mentir não é problema para alguém na sua posição. Ou você agora tem escrúpulos?

Matias quis se ofender, mas preferiu a prudência.

– Não, não.
– É por isso que admiramos você, querido.

Ele sorriu enquanto pensava sobre essa terceira pessoal do plural que o admira. Existem outras pessoas intrincadas nessa conversa, concluiu.

Na confraternização, aos poucos Matias recuperou umas poucas recordações, nada pessoal, somente lampejos. Uma passagem de avião, somente ida, para algum paraíso fiscal. Documentos, passaporte, dupla cidadania, dinheiro em espécie, uma sequência de imagens que sugeria uma ordem planejada, talvez um roteiro, uma agenda. De repente, como um abalo físico, a lembrança de um horário o pôs em alerta. A viajem seria nesta madrugada, daqui a poucas horas.

Ao tentar sair sem que ninguém percebesse, Marilda o abordou no corredor do restaurante.

– Você já vai?
– Sim. Tenho que estar preparado.
– Faz sentido. Deixa eu te acompanhar até o táxi.

Andaram até a esquina. A loira esperou que Matias entrasse no carro, olhou para o lados e com lascívia beijou-lhe a boca.

– Você merece – disse nervosa.

Ele nunca mais a viu. Dias depois, na praia distante, entediado como nunca, Matias leu no jornal que o ídolo infantil das fraudes financeiras morrera. Aparentemente fora um suicídio, mas suspeitas sobre a esposa, que aparecia belíssima no foto vestida de viúva, não estavam descartadas. Era loira. Marilda.

Matias bebericou o drinque e  ponderou consigo mesmo:

“Essa é a lembrança mais próxima que tenho da criança que fui um dia. É como se nada mais existisse, nada tivesse acontecido”.

Soterrado

areiaComo pude ignorar assim o óbvio? Certo dia, cismando sem maiores pretensões, ainda pela manhã ensolarada, fui pego de surpresa por um pensamento impactante de indiscutível importância, chave para compreender certos aspectos da vida que até então me eram inexplicavelmente despercebidos.

De tão natural e lógica, causou-me espanto a demora (anos, décadas) dessa revelação. Em contrapartida, uma vez acesa a sua centelha inicial, a dinâmica subsequente das conclusões em cadeia que se formaram bastou para impelir em meu espírito uma instigante marcha em busca de novas descobertas. Tratou-se, portanto, de um processo aparentemente irrefreável.

A profusão de variantes que se descortinaram naquele momento e toda gama de possibilidades surpreendentes causaram-me uma ansiedade que pedia, como condição para futuras ações, organização e cadência, a fim de direcionar melhor o senso de urgência que me afligia. Era preciso, para efeito de posse, registrar o acontecido. Cheguei a pensar em anotar os diversos tópicos que se amontoavam nesse instante de catarse para retomá-los à noite, mas concluí que não precisava disso, já que tudo o que eu havia pensado apresentava-se como parte de mim, inseparável, inerente ao que me tornara a partir dali.

Voltei aos afazeres cotidianos do trabalho e a mecânica da rotina se impôs como anestésico domador da consciência excitada. Mais tarde eu continuaria a pensar, ponderei.

À noite, saciada a fome e despojado da maioria das obrigações domésticas, livre da carga de responsabilidades feita de prazos e metas profissionais, busquei retomar o pensamento. Porém, não há como explicar, nada me veio à mente. Deus! Como? Seria apenas uma impressão errada sobre algo no fundo dispensável? Não, não! Era importante, eu sei! Mais do que precioso, era fundamental para a construção de uma nova etapa, o novo rumo para uma vida menos ordinária! Traído pela memória, um vazio se instalou em mim e o pensamento acabou engolido pela frustração, perdido em algum lugar lá no fundo, soterrado pelas coisas banais e sem importância.

O que você quer?

Sala escuraSob a luz tênue, morna e constante da sala, as risadas cessaram e o silêncio ecoou. O comedimento atendia às convenções que o momento exigia. O hiato de sons intensificou o encontro de olhares sintonizados na mesma conclusão: a conversa não rendeu o que deveria, não era o que poderia e deveria ter sido. Ela então pergunta:

– O que você quer?

Ele tenta segurar a vista firme, mas baixa rapidamente os olhos para o chão. Depois, com receio de parecer inseguro, volta a encará-la.

– Não sei ao certo. Talvez não queira mais nada – respondeu o homem, que não era moço nem velho.

– Todos querem algo, há sempre um anseio, um descontentamento, uma correção, um desafio, algo que em determinado momento o consome.

Com a voz suave e o semblante levemente audacioso, ela insiste: – O que você quer?

Novo silêncio. Ele continua a desviar o olhar, mirando a janela em busca de fuga.

– Dormir. Quero dormir.
– Quem não dorme todos os dias? É fisiológico. É como acordar.
– Não. Nem todos acordam, nem todos conseguem dormir.

Um novo silêncio se fez. Ele continuou: – Não ria assim. Você sabe o que aconteceu. Sabe que durante esses anos eu quis despertar. Pesquisei, procurei formação, li teses e poemas, orei com fervor, defendi ideais e nunca consegui nada mais do que certezas efêmeras. Foi tudo um sonho.

– Então o que você quer é o aconchego do ceticismo.
– Não se trata de uma afetação, mas de uma constatação: não há despertar. O problema é que também não existe o sono.
– Então, se dormir não é possível e a vigília uma ilusão, o que você quer?
– Quero dormir. Profundamente.

Ela se levanta e caminha até o homem. Eles se olham mais uma vez e o silêncio volta a ecoar. Com carinho, a mulher se despede com uma carícia no rosto bem barbeado. Ele suspira devagar e diz:

– Apague a luz ao ir embora, por favor.

Sem olhar para trás ela responde:

– Como quiser. Bons sonhos, querido.

E o escuro se fez, infinito e profundo.