Soterrado

areiaComo pude ignorar assim o óbvio? Certo dia, cismando sem maiores pretensões ainda pela manhã ensolarada, fui pego de surpresa por um pensamento impactante, de indiscutível importância, a chave para a compreensão de certos aspectos da vida que até então me eram inexplicavelmente despercebidos.

De tão natural e lógica, causou-me espanto a demora (anos, décadas) dessa revelação. Em contrapartida, uma vez acesa a sua centelha inicial, a dinâmica subsequente das conclusões em cadeia que se formaram bastou para impelir no meu espírito, uma instigante marcha em busca de novas descobertas. Tratou-se, portanto, de um processo aparentemente irrefreável.

A profusão de variantes que se descortinaram naquele momento e toda gama de possibilidades surpreendentes causaram-me uma ansiedade que pedia, como condição para futuras ações, organização e cadência, a fim de direcionar melhor o senso de urgência que me afligia. Era preciso, para efeito de posse, registrar o acontecido. Cheguei a pensar em anotar diversos tópicos que se amontoavam nesse instante para retomá-los à noite, mas concluí que não precisava disso, já que tudo o que eu havia pensado apresentava-se como parte de mim, inseparável, inerente ao que me tornara a partir dali.

Voltei aos afazeres cotidianos do trabalho e a mecânica da rotina se impôs como anestésico domador da consciência excitada. Mais tarde eu continuaria a pensar, ponderei.

À noite, saciada a fome e despojado da maioria das obrigações domésticas, livre da carga de responsabilidades feita de prazos e metas profissionais, busquei retomar o pensamento. Porém, não há como explicar, nada me veio à mente. Deus! Como? Seria apenas uma impressão errada sobre algo no fundo dispensável? Não, não! Era importante, eu sei! Mais do que precioso, era fundamental para a construção de uma nova etapa, o novo rumo para uma vida menos ordinária! Traído pela memória, um vazio se instalou em mim e o pensamento acabou engolido pela frustração, perdido em algum lugar lá no fundo, soterrado pelas coisas banais e sem importância.

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