Kafka e eu

kafka-metamorfoseQuando leio Kafka, sinto uma sensação de liberdade que instantes depois degenera em remoto sentimento de opressão, sensação íntima e sutilmente desagradável. Não é agudo, mas incomoda pela persistência. Quando leio Kafka sinto a satisfação da descoberta, do encontro mágico com uma sintaxe refinada e precisa, elegante e de enorme poder descritivo, capaz de apresentar de modo sublime coisas intangíveis relacionadas à sensibilidade humana. É tocante descobrir alguém apto a expressar com palavras o que antes parecia a você uma impossibilidade: a capacidade de dar forma ao etéreo, de concretizar o abstrato das intuições, de manifestar ao leitor a essência profunda até do que parece sem sentido. Ocorre que, como eu já disse, no momento seguinte a essa alegria, algo estranho acontece, uma discreta culpa me persegue quando constato, arrogante, não ter a desenvoltura para nem mesmo imitar, anda que de longe, o estilo que tanto admiro.

Ler Kafka me deixa envergonhado do pouco que escrevo, por revelar-me as limitações do que faço, enquanto ele é soberbo na construção de seus enredos. Inveja? Não. É diferente: na inveja há a pretensão de igualdade. Algo parecido também me acontece quando leio Machado de Assis, Thomas Mann ou Fernando Pessoa, mas com Kafka essa impressão é mais intensa, sobretudo quando conhecemos um pouco da sua biografia: o menino franzino que se faz homem tímido e acanhado, introvertido a ponto de não formar família, eternamente assombrado por não corresponder aos anseios do pai, sujeito expansivo e bem sucedido nos negócios. O gigante literário que se metamorfoseava em inseto social na sua pouca autoestima. Como podia Kafka não ser cheio de si, imponente, ciente de seu extraordinário talento? Seus textos são formidavelmente lapidados. Frases longas pontuadas com uma habilidade incomum até entre os grandes escritores, conseguem prender a atenção do leitor sem jamais o conduzir a labirintos sem saída. Suas nuances, interjeições e adendos, constituem elementos que enriquecem a narrativa de um modo surpreendente. Em suas tramas sinuosas conseguimos enxergar um pouco de nós mesmos e que pensávamos escondidos de todos.

Kafka fascina e constrange este seu pequeno admirador. Outro ponto instigante de sua trajetória de glórias póstumas — Kafka não foi reconhecido em vida, o que me comove, por saber que ele morreu acreditando na imagem depreciativa que fazia de si mesmo — é a constatação lógica de que sem as angústias que o atormentaram, notadamente a cobrança paterna por performance nos negócios da família, sua psiquê não teria fermentado o espírito que o consagrou como gênio da literatura. Não haveria o mundo kafkaniano, a melhor tradução do mal-estar civilizatório exposto por Freud anos depois: o homem como contenção de sua própria sua natureza, refreando os instintos tanto quanto possível, refinando os modos, reprimindo impulsos, criando ordem, ou a sensação de ordem. No processo de adaptação ao mundo, cada indivíduo encontra o seu jeito de alinhar-se aos ditames do momento e às exigências externas e internas que nos traumatiza a vontade e educa a alma. Kafka dava vazão a essa frustração em seus cadernos empoeirados.

E ao pensar sobre essas distinções de caráter psicológico e sociológico, neste exato instante uma baba espessa me escorre do meio da boca. Sério! Felizmente estou só e com a mão esquerda limpo a gosma sem que ninguém perceba. Naturalmente o constrangimento me atrapalha agora. Já não encontro o ponto perdido de minhas reflexões e antes mesmo de conseguir retomar o pensamento desde onde parei, me lembro de meu pai falecido há muitos anos. Ele não me cobrava brilhantismo, mas por isso mesmo, sem que percebesse (isso seria impossível pela natureza fraternal de suas intenções), deixava transparecer a impressão de que ele, intimamente, sabia que minha fronteira intelectual estava circunscrita à mediocridade dominante. Amava-me sem maiores pretensões de orgulho, por antever que o comum era o meu substrato. E por isso buscava mostrar para mim — preparando-me secretamente o espírito — a beleza da simplicidade, de forma que eu pudesse me satisfazer nessa condição. Digo isso sem mágoa e até com gratidão (ao contrário de Kafka, em Carta ao Meu Pai), muito menos como disfarce de humildade com a intenção de parecer um gênio incompreendido, até porque tenho a capacidade de reconhecer a genialidade quando a vejo (e isso é raro), como no caso dos escritores que admiro.

Outra golfada de baba me escorre da boca, grossa, mas agradável e prazerosa. De início parecia exalar mau cheiro, mas depois de alguns instantes, não mais. Súbito, imagino que estou sendo observado, todavia constato estar sozinho. Tento pegar um lenço de papel no canto direito da mesa e derrubo um guarda-lápis de madeira, o que é estranho, pois os objetos estavam distantes um do outro. Vejo então a forma pontiaguda de meu braço, que braço já não é mais, e sim uma fina pata de inseto, longa e repugnantemente peluda, colada ao meu tronco que agora exibe um “arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados”. De ímpeto, tomado por uma angústia atroz, quero fugir do que me tornei e sou agora; tento em vão sair de mim, apagar meus sentidos e consciência. Não é o desejo de morrer, pois percebo que é o apego ao instinto de sobrevivência que me faz fechar as janelas do quarto, por medo do que me aconteça uma vez exposto assim como sou e ninguém sabia; não é morrer que desejo, mas apenas deixar de existir ou nunca ter existido, o que é uma rematada bobagem que credito ao desespero de existir assim desconexo, ressentido, desconfiado e repugnante.

Na forma grotesca de inseto — nela apenas — finalmente me igualo a Kafka. Ou quase, pois uma diferença substancial ainda nos separa: no caso dele, era tudo imaginação.

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