O mistério da fé

vader-obiwanDesde cedo Maristela sinalizou propensão aos mistérios da fé. Todavia, filha de agnósticos, cresceu sem orientação religiosa específica. Céticos, seus pais viam as questões ligadas ao sobrenatural como meras superstições pueris impregnadas de misticismo e ignorância. Apesar disso, Maristela nutria profunda admiração pelas manifestações de devoção nas mais diferentes crenças.

Adulta, decidiu dar vazão a esse pendor pelo transcendental e saiu à procura de respostas para as perguntas que a inquietavam.  O desafio, excitante junção de mistério e aventura, logo se mostrou incerto, sem indícios seguros de como e por onde começar. De qualquer modo, ela ganhou o mundo.

Certa feita caiu de paixão por um rapazola iniciado num culto de origem asiática, que no Brasil foi acrescido de complementos africanos, estes já alterados por liturgias europeias. Chegaram a sair juntos, mas o romance não prosperou. É que após algumas conversas, o moço se perdeu na amálgama indecifrável de doutrinas misturadas aleatoriamente, mesmo quando eram francamente incompatíveis ou até contraditórias. Com o tempo, Maristela percebeu que as hesitações e os malabarismos retóricos de seu jovem orientador não passavam de frases decoradas, disfarces para esconder uma desconcertante ausência de convicções, mas que uma vez desmascaradas, constituíam indícios de charlatanismo barato, que por sua vez não o impediram de fundar, algum tempo depois, uma igreja que veio a ser muito popular. Decepcionada, Maristela trocou a contemplação sem foco do rapaz por um curso de religiões comparadas.

O problema é que ela não era afeita aos meandros das teologias, muito menos aos rigorosos procedimentos da investigação filosófica. O que a moça desejava mesmo era uma revelação direta, sem complicações, livre de impasses e distante daquela complexidade que nutre as discussões intermináveis. Não que Maristela se achasse merecedora de privilégios, uma espécie de “escolhida”, mas é que, a seu ver, não há sentido algum em se ter “A verdade” como um mistério que só pode ser desvendado por poucos, inacessível à maioria. Essa restrição configuraria, para o espírito solidário de Maristela, inaceitável injustiça, já que as pessoas sem sofisticação nas artes da abstração estariam condenadas a viver como animais, guiadas somente pelos instintos primitivos dos sentidos básicos. Como poderiam os mendigos, os analfabetos, os doentes mentais, os excluídos em geral e os destituídos dos talentos do raciocínio mais elaborado aspirarem algo mais da existência? Eram pensamentos que afligiam Maristela, que às cegas procurava amparo nas metáforas que elucubrava: “Assim como o ar que respiramos é dádiva universal, as razões do viver têm que estar ao alcance de todos”; “Se um jogo só pode ser justo na medida em que suas regras sejam de conhecimento geral, imagine a vida”; “É preciso alcançar a luz da simplicidade para que sejamos capazes de enxergar a chave de tudo”. E assim a jovem passou a olhar para as pequenas coisas com obsessiva atenção, sempre à espera de um insigth revelador.

Um dia, lendo o jornal, ficou muito impressionada com  a notícia de um sujeito que escapara de terrível acidente aéreo. O homem perdera o voo ao se atrasar por causa de uma noite de excessos, sendo salvo da morte certa pela própria imprevidência e irresponsabilidade. Maristela suspeitou de imediato que, escrevendo certo por linhas tortas, o destino se manifestava também nos contratempos ou até nos erros. Diante da dificuldade de extrair sentido do acaso para determinar conexões de causa e efeito na infinidade de acontecimentos do dia a dia, sua obstinação nesse sentido foi perdendo o ímpeto.

Desconsolada, buscou apoio nas antigas tradições e na exegese de textos sagrados, porém, nada nesses escritos fantásticos tinha o caráter definitivo por que tanto ansiava. Para cada afirmação contida nos postulados de uma religião, outras religiões apresentavam-lhe contra-argumentos igualmente convincentes. Por fim, a pobre começava a se conformar com o fato de que seus esforços não geraram os resultados esperados e que talvez nada nunca fosse esclarecido.

Até que uma noite qualquer, vendo TV sozinha em casa, Maristela esbarrou por acaso com a exibição do clássico Guerra nas Estrelas, de George Lucas, justo na cena em que o vilão Darth Vader luta contra o herói Obi-Wan Kenobi. Para sua imensa surpresa, ali estava a resposta! Bem ali, no entrelaçar vermelho e azul dos sabres que dançavam reluzentes, no arquétipo fundamental e inescapável da vida, no mais antigo dos conflitos: a luta entre o bem e o mal. Variando de nome, era esse o elemento comum a todas as religiões: o embate de Deus contra o diabo. Uma verdade simples e direta, como em seus sonhos. Enfim, a revelação pela qual tanto procurara! Nada de intrincados devaneios ou estudos pedantes, tudo podia ser explicado, quem diria, pela cultura pop.

No entanto, o alívio de Maristela durou pouco. A notícia de um atentado terrorista cometido em nome de Deus em algum país distante a perturbou intensamente. Como pode a crença de fieis na perfeição divina degenerar em violência? Passou então a pressentir que o demônio, no intuito de confundir o homem, o induz ao mal passando-se por Deus. Dissimulado e paciente, o maldito ganharia aos poucos a confiança dos desavisados até consumar sua real intenção. “Todo cuidado é pouco para não se deixar enganar, eis a vigília”, concluiu Maristela, que passou então a desconfiar de seus bons sentimentos, com receio de que ali estivessem plantadas as sementes do inimigo, como se fossem cavalos de Troia espirituais. No rastro dessa nova dúvida, outras mais surgiram: “Assim como a escuridão impele o homem à luz, seria o diabo a fonte das aflições que depois o levam a procurar a salvação?”; “Se o bem se manifesta como reação aos maus, estando antes em estado latente, teria o mal uma função positiva no avanço da vida?”; “Sendo o mal inevitável elemento que desperta as consciências para o remédio do bem, o diabo não seria apenas um bode expiatório para nos aliviar do peso de nossa própria natureza ruim? Afinal, a quem mais culparíamos pelas desgraças que criamos?” As contradições dessas novas objeções a afligiram como nunca.

Então Maristela buscou socorro mais uma vez em Guerra nas Estrelas. Obi-Wan morreu e Luke, outro mocinho, era filho de Darth Vader, personagem que agora ela via sem repulsas e até com alguma simpatia, por entrever naquela figura sinistra perdida entre os lados opostos da “força”, algo de humano e divino, um pouco dela mesma. E sua busca pela essência metafísica da vida recomeçou do nada.

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