A bala

BalaA bala zunia como se gritasse de emoção enquanto rasgava a frágil e incansável resistência do ar. Voava ríspida em busca de um anteparo. Balas precisam de um alvo, mesmo quando disparadas a esmo. O tiro para o alto, sem nada a mirar, aterroriza os projéteis por ser vazio de sentido. Sem explodir violentamente contra algo ou alguém, uma cápsula não passa de pérola jogada aos porcos, chumbo desperdiçado, árvore sem fruto. É uma compulsão de existir que ignora juízos morais. Estes, aliás, só aparecem na esteira dos fatos que dão algum tipo de razão ao viver, afinal, ninguém avalia o nada. Portanto, cada qual com suas aspirações. Pelo menos isso é o que passei a considerar depois do acontecido.

Não vi quando ela me perfurou, nem senti seu calor, mas o sangue que desceu após o nosso contato era quente e amenizava de modo aconchegante o frio repentino. Alguns vultos circulavam ao meu redor. Alguns estavam vivos, outros estavam mortos. Falavam (murmúrios) e gesticulavam como se estivessem tranquilos. Sei de mim que não havia esperança.

Soube (não lembro quando) que minha esposa sonhara encontrar comigo logo depois desse instante. No sonho eu queria dizer-lhe algo, mas dos meus lábios, que tremiam timidamente, nenhuma palavra saia. Então com ternura estendi-lhe as mãos para abraçá-la, em tocante cena. Quem me contou isso foi uma amiga dela, que eu nem conhecia, mas que me apareceu também em sonho (quando foi isso, meu Deus?). Em certos momentos, tudo parece sólido e etéreo ao mesmo tempo e as coisas parecem transitar entre o estado de vigília e a essência etérea dos sonhos. É a interseção entre vida e morte, a fusão traiçoeira da lembrança com a imaginação.

Ângela não me disse o seu nome, que de alguma forma eu intuía desde sempre. Com voz pausada puxou conversa.

– Oi. Joana me disse outro dia que sonhou com você. Até reclamou da sua roupa amarrotada.
– Ah… Sinto saudades dela. Onde vocês se conheceram?
– No colégio. Jardim de infância.
– Ela não veio?
– Não, infelizmente. Se pudéssemos escolher com quem sonhar ou em quais sonhos aparecer, seria muito mais prático. Mas não é assim que funciona. De qualquer modo, estou aqui.
– Se a vir, mande lembranças e diga que a aguardo por aqui. E que a amo e que vou bem… Quer dizer… Que apesar de estar mal, estou bem.
– Digo, sim, não se preocupe, se voltar a encontrá-la. Sabia que ela se casou?
– Foi? Já?
– Bom, na verdade ainda não aconteceu. É que sou precipitada. Quis dizer que ela vai se casar com um colega da igreja em breve. Como isso me ocorre em forma de  lembrança, me confundo.
– Mas nem vamos à igreja!
– Ela irá a partir de agora.
– Mas agora estou aqui, no chão.
– Bom, ela irá em breve.
– Como você sabe?
– O futuro marido, Jonas, um amigo em comum, me disse isso quando sonhei em que perambulávamos pela Península de Yamal, na Sibéria. Lá andam ocorrendo fenômenos geológicos estranhos.
– Não parece ter sentido. Que loucura!
– Sonhos são assim. No mais, é isso. Tenho que ir.
– Pra onde?

Ângela não respondeu e no instante seguinte, a mulher, de uns quarenta anos e quase obesa, de cabeça pequena, ombros curtos e quadril largo, já caminhava rente ao horizonte. De longe, suas formas ganharam contornos de uma silhueta suavemente arredondada, cônica, que lembrava uma bala não disparada.

Olhei para o lado e vi meu braço esquerdo estendido sobre o asfalto. Próximo aos dedos da mão alguns pares de sapato entrecortavam a luz do sol. Uns parados, outros caminhando. Virei para o outro lado e perto de mim avistei uma bala retorcida, estourada em cima, próxima à sarjeta. Mais atrás, reparei que havia um muro branco. E lembrei alguém dizer que a bala tinha me atravessado o corpo.

Cerrei a vista para focar a pequenina. A bala sorriu para mim. Um sorriso fraterno, embora alquebrado, quase sofrido, mas simpático. Havia dor e satisfação nele. Não era um sorriso de regozijo ou de ódio. Transbordava um contentamento sereno, típico de quem sente alívio pelo dever cumprido. E como se não houvesse mais vulto algum, ela disse:

– Nada foi em vão.
– O quê? Perguntei.
– Meu destino se fez em seu propósito. Tudo tem um motivo, uma razão. O destino é a busca por realizar aquilo o que inspira a existência.
– Não nasci para ser baleado…
– Como não? Balas como eu não existem para a prática de esporte ou caça.
– Poderia ter sido outro. E se eu não passasse por aqui hoje? Geralmente prefiro sair um pouco mais tarde. Como se faria o seu destino? Sua glória seria dar de cara para um muro.
– Dei sorte. Toda ação e toda iniciativa, no fim, se equilibram na tensão que existe entre sorte e azar.
– Não entendi. E não a culpo, se isso importa. De onde você veio?
– Nada mais interessa agora. Também não sei de onde vim. Estava escuro, conversávamos e, de repente, começamos a viagem. Eu era a segunda da fila. Depois tudo clareou como fogo. O resto foi velocidade e incandescência. Depois, uma parede. No meio do caminho, você.
– Mas quem foi que atirou? E por quê?
– Que importa?
– É… Deixa; seria uma preocupação a mais. Você está bem?
– Mais ou menos. Tive a impressão de ter visto vultos de outras balas, de vários calibres. Umas pareciam vivas, outras, chumbo descartado.
A bala silenciou. Os vultos sumiram. E o sangue, jorrando menos e coagulando ao redor pelo asfalto velho, já não mais aquecia.

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