Soterrado

areiaComo pude ignorar assim o óbvio? Ainda pela manhã, cismando sem maiores pretensões, fui pego de surpresa por um pensamento impactante, de indiscutível importância, como se fosse uma chave para compreender certos aspectos da vida que até então me eram inexplicavelmente despercebidos.

De tão natural e lógica, causou-me espanto a demora (anos, décadas) pela revelação que se fazia somente agora. Em contrapartida, uma vez acesa a sua centelha inicial, a dinâmica das conclusões em cadeia que se seguiriam bastaria para impelir, no meu espírito, uma instigante marcha em busca de novas descobertas. Seria, portanto, um processo irreversível e impossível de ser contido.

A profusão de variantes que se descortinavam naquele momento e as possibilidades de conclusões surpreendentes causaram-me uma ansiedade que pedia, como condição para futuras ações, organização e cadência, para direcionar melhor o senso de urgência que me afligia. Era preciso registrar o acontecido. Cheguei a pensar em anotar tópicos para retomá-los à noite, mas concluí que não precisava disso, já que tudo o que eu havia pensado apresentava-se como parte de mim, inseparável, inerente ao que me tornara a partir dali.

Voltei aos afazeres cotidianos do trabalho e a mecânica da rotina se impôs como anestésico da consciência perturbada. Mais tarde eu continuaria a pensar.

À noite, saciada a fome e despojado da maioria das obrigações domésticas, livre da carga de responsabilidade feita de prazos e metas profissionais, busquei retomar o pensamento. Porém, não há como explicar, nada me veio à mente. Deus! Como? Seria apenas uma impressão errada sobre algo no fundo dispensável? Não, não! Era importante, eu sei! Mais do que precioso, era fundamental para a construção de uma nova etapa, um novo rumo para uma vida menos ordinária! Traído pela memória, um vazio se instalou em mim e o pensamento acabou engolido pela frustração, perdido em algum lugar lá no fundo, soterrado pelas coisas banais e sem importância.

O que você quer?

Sala escuraSob a luz tênue, morna e constante da sala, as risadas cessam e o silêncio ecoa. Tinham o comedimento das convenções artificiais. O intervalo foi o suficiente para o encontro de olhares sintonizados na mesma conclusão: a conversa não rendia o que deveria, não era o que poderia ser. Ela então pergunta:

– O que você quer?

Ele tenta segurar a vista firme, mas abaixa rapidamente os olhos. Depois, com receio de parecer inseguro, volta a encará-la.

– Não sei ao certo. Talvez não queira mais nada – respondeu o homem, que não era moço nem velho.
– Todos querem algo, há sempre um anseio, um descontentamento, uma correção, um desafio, algo que em determinado momento o consome. – Com a voz suave e o semblante levemente audacioso, ela insiste: O que você quer?

Novo silêncio. Ele agora não mais se preocupa em desviar o olhar, mirando o chão e depois a janela.

– Dormir. Quero dormir.
– Quem não dorme todos os dias? É fisiológico. É como acordar.
– Não. Nem todos acordam, nem todos conseguem dormir. – Um novo silêncio se fez. Ele continua: – Não sorria assim. Você sabe o que aconteceu. Sabe que durante esses anos eu quis despertar. Pesquisei, procurei formação, li teses e poemas, orei com fervor, defendi ideais e nunca consegui nada mais do que certezas efêmeras. Foi tudo um sonho.
– Então o que você quer é o aconchego do ceticismo.
– Não se trata de uma afetação cética, mas de uma constatação: não há despertar. O problema é que também não existe o sono.
– Então, se dormir não é possível e a vigília uma ilusão, o que você quer?
– Quero dormir. Profundamente.

Ela se levanta e caminha até o homem. Eles se olham mais uma vez e o silêncio volta a ecoar. Com carinho, a mulher se despede com uma carícia no rosto dele, que estava bem barbeado. Ele suspira devagar e diz:

– Apague a luz ao ir embora, por favor.

Sem olhar para trás ela responde:

– Como quiser. Bons sonhos, querido.

E o escuro se fez, profundamente.

Kafka e eu

kafka-metamorfoseQuando leio Kafka sinto uma sensação de liberdade que, instantes depois, degenera num remoto sentimento de opressão íntima. Não é uma dor aguda, mas incomoda pela persistência. Quando leio Kafka sinto a satisfação pela descoberta de uma sintaxe refinada e precisa, elegante e com enorme poder descritivo, capaz de apresentar de modo sublime as coisas intangíveis relacionadas à sensibilidade humana. É tocante descobrir alguém apto a expressar com palavras o que antes parecia a você mesmo uma impossibilidade: a capacidade de manifestar ao leitor o intangível e o essencial. Ocorre que no momento seguinte, uma discreta culpa me persegue pela constatação de que não tenho desenvoltura que possa, pelo menos, ser algo parecida com a de quem admiro tanto. Ler Kafka me deixa envergonhado do que escrevo, por me apresentar as limitações do que sou, enquanto ele é soberbo na construção de seus enredos. Algo parecido também acontece quando leio Machado de Assis, Thomas Mann ou Fernando Pessoa; mas com Kafka essa impressão é mais intensa; tanto mais quando conhecemos um pouco de sua biografia: o menino franzino que se faz homem tímido e acanhado, introvertido a ponto de não formar família, e que vivia assombrado por não corresponder aos anseios do pai, sujeito expansivo e bem sucedido nos negócios. O gigante que se metamorfoseava em inseto em sua pouca autoestima. Como pode Kafka não ser cheio de si, imponente, ciente de seu extraordinário talento? Seus textos são formidavelmente lapidados. Frases longes, pontuadas com uma habilidade incomum até entre os grandes escritores, conseguem prender a atenção do leitor. Suas nuances, interjeições e adendos, constituem elementos que enriquecem a narrativa de um modo surpreendente. Em suas tramas sinuosas conseguimos enxergar um pouco de nós mesmos e que pensávamos escondidos de todos.

Kafka fascina e constrange este seu pequeno admirador. Outro ponto instigante de sua trajetória de glórias póstumas – Kafka não foi reconhecido em vida, o que me comove, por saber que ele morreu acreditando na imagem depreciativa que fazia de si mesmo – é a constatação lógica de que sem as angústias que o atormentaram, notadamente a cobrança paterna por performance nos negócios da família, sua psiquê não teria fermentado o ambiente mental que o consagrou como gênio da literatura. Não haveria o mundo kafkaniano, a melhor tradução do mal-estar civilizatório exposto por Freud anos depois: o homem como contenção de sua própria sua natureza, refreando os instintos tanto quanto possível, lapidando os modos, reprimindo impulsos. O não traumatiza e também educa. Como nossa essência não pode ser descartada de uma hora para outra, cada um encontra o seu jeito de adaptar-se aos ditames do momento e às exigências externas e internas que nos contém a alma. Kafka dava vazão a essa frustração em seus cadernos empoeirados.

E ao pensar sobre essas distinções de caráter psicológico e sociológico, neste exato instante uma baba espessa me escorre do meio da boca. felizmente, estou só e com a mão esquerda limpo a gosma. Busco então o ponto perdido de minhas reflexões e antes mesmo de retomar o pensamento de onde parei, lembro de meu pai falecido há muitos anos. Ele não me cobrava brilhantismo, mas, por isso mesmo, sem que percebesse (isso seria impossível pela natureza fraternal de suas intenções), deixava transparecer, involuntariamente, a impressão de que ele intimamente sabia que minha fronteira intelectual estava circunscrita à mediocridade dominante. Amava-me sem maiores pretensões de orgulho, por antever que o comum era o meu substrato. E por isso buscava mostrar para mim – preparando-me secretamente o espírito – a beleza da simplicidade, de forma que eu pudesse me satisfazer nessa condição. Digo isso sem mágoa e até com gratidão; muito menos como disfarce de humildade com a intenção de parecer um gênio incompreendido; até porque, o que tenho em mim basta para me fazer capaz de reconhecer a genialidade quando a vejo, como no caso dos escritores que admiro.

Outra golfada de baba me escorre da boca, grossa, mas agradável e prazerosa. De início parecia exalar mau cheiro, mas depois de alguns instantes, não mais. Súbito, imagino que estou sendo observado, mas verifico que estou sozinho. Tento pegar um papel no canto direito da mesa e derrubo um guarda-lápis de madeira, o que é estranho, pois percebo ter alcançado a caixa de lenços sem ter esbarrado em nada e, no entanto, senti quando atingi o objeto que rolava pelo chão. Veja então a forma pontiaguda de meu braço que braço já não é mais, e sim uma fina pata de inseto, longa e repugnantemente peluda, colada ao meu tronco que agora exibe um “arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados”. De ímpeto, tomado por uma angústia atroz, quero fugir do que sou e me tornei; tento em vão sair de mim, apagar meus sentidos e consciência. Não é o desejo de morrer, pois percebo que é o apego ao instinto de sobrevivência que me faz fechar as janelas do quarto, por medo do que me aconteça uma vez exposto como sou; não é morrer que desejo, mas apenas deixar de existir ou nunca ter existido, o que é uma rematada bobagem que credito ao desespero de existir assim desconexo, ressentido, desconfiado e repugnante.

Na forma grotesca de inseto me igualo a Kafka. Ou quase; pois uma diferença substancial nos separa: no caso dele, era tudo imaginação.

O mistério da fé

vader-obiwanDesde cedo Maristela manifestou propensão aos mistérios da fé. Todavia, filha de agnósticos, cresceu sem orientação religiosa específica. Céticos, seus pais viam as questões do sobrenatural como manifestações impregnadas de “misticismo e ignorância”, meras “superstições pueris”. Apesar disso, Maristela nutria profunda admiração pelas manifestações de devoção nas mais diferentes crenças.

Adulta, decidiu dar vazão a esse pendor pelo transcendental e saiu à procura de respostas para perguntas que a inquietavam.  O desafio, excitante junção de mistério e aventura, logo se mostrou incerto, sem indícios seguros de como e por onde começar. De qualquer modo, ela ganhou o mundo.

Certa feita, caiu de paixão por um rapazola iniciado num culto de origem asiática, que no Brasil foi acrescido de complementos africanos, estes já alterados por liturgias europeias. Chegaram a sair juntos, mas o romance não prosperou. É que, após algumas conversas, o moço se perdeu na amálgama indecifrável de concepções doutrinárias misturadas aleatoriamente, mesmo quando eram francamente incompatíveis ou até contraditórias. Para Maristela, as hesitações e os malabarismos retóricos de seu jovem orientador sem lastro não passavam de frases decoradas, disfarces para esconder uma desconcertante ausência de convicções, mas que uma vez desmascaradas, constituíam indícios de charlatanismo barato. Decepcionada, trocou a contemplação sem foco do rapaz por um curso de religiões comparadas.

O problema é que Maristela não era afeita aos meandros das teologias, muito menos aos rigorosos procedimentos da investigação filosófica. O que ela desejava mesmo era uma revelação direta, sem complicações, livre de impasses, paradoxos e demais complexidades das discussões intermináveis. Não que Maristela se achasse merecedora de privilégios, uma espécie de escolhida, mas é que, a seu ver, não há sentido algum ter “A verdade” como um mistério que só pode ser desvendado por poucos, inacessível à maioria. Essa restrição configuraria, para o espírito solidário de Maristela, inaceitável injustiça, já que as pessoas sem sofisticação nas artes da abstração estariam condenadas a viver como animais, guiadas somente pelos instintos primitivos da carne. Como poderiam os mendigos, os analfabetos, os doentes mentais, os excluídos em geral e os destituídos dos talentos do raciocínio mais elaborado aspirarem algo mais da existência? Eram pensamentos que afligiam Maristela, que às cegas procurava amparo nas metáforas que elucubrava: “assim como o ar que respiramos é dádiva universal, as razões do viver têm que estar ao alcance de todos; “se um jogo só pode ser essencialmente justo na medida em que suas regras sejam de conhecimento geral, imagine a vida”; “é preciso alcançar a luz da simplicidade para que sejamos capazes de enxergar a chave de tudo”. E assim a jovem passou a olhar para as pequenas coisas com obsessiva atenção, sempre à espera de um insigth revelador.

Um dia, lendo o jornal, ficou muito impressionada com  a notícia de um sujeito que escapara de terrível acidente aéreo. O homem perdera o voo por ter perdido a hora após uma noite de excessos, sendo salvo da morte certa pela própria imprevidência. Maristela suspeitou de imediato que, escrevendo certo por linhas tortas, o destino se manifestava também nos contratempos. Além de vigiar os pormenores da vida, era preciso saber interpretar os imprevistos. Diante da dificuldade de extrair sentido do acaso para determinar conexões de causas e efeito na infinidade de acontecimentos do dia a dia, sua obstinação nesse sentido foi perdendo o ímpeto.

Desconsolada, buscou apoio nas antigas tradições e na exegese de textos sagrados, porém, nada nesses escritos fantásticos tinha o caráter definitivo pelo qual ansiava. Para cada afirmação contida nos postulados de uma religião, outras religiões apresentavam-lhe contra-argumentos igualmente convincentes. Por fim, a pobre começava a se conformar com o fato de que seus esforços não geraram os resultados esperados e que talvez nada nunca fosse esclarecido.

Até que uma noite qualquer, vendo TV sozinha em casa, Maristela esbarrou por acaso com a exibição do clássico Guerra nas Estrelas, de George Lucas, justo na cena em que o vilão Darth Vader luta contra o herói Obi-Wan Kenobi. Para sua imensa surpresa, ali estava a resposta! Bem ali, no entrelaçar vermelho e azul dos sabres que dançavam reluzentes, no arquétipo fundamental e inescapável da vida, no mais antigo dos conflitos: a luta entre o bem e o mal. Variando de nome, era esse o elemento comum a todas as religiões: o embate de Deus contra o diabo. Uma verdade simples e direta, como em seus sonhos. Enfim, a revelação pela qual tanto procurara! Nada de intrincados devaneios ou estudos pedantes, tudo podia ser explicado pela cultura pop.

No entanto, infelizmente, o alívio de Maristela durou pouco. A notícia de um atentado terrorista cometido em nome de Deus em algum país distante a incomodou intensamente. Como pode a crença de fieis na perfeição divina degenerar em violência? Passou então a pressentir que o demônio agisse obstinado no intuito de confundir o homem, induzindo-o ao mal passando-se por Deus para ludibriar os ignorantes e os fanáticos. Dissimulado e paciente, o maldito ganharia aos poucos a confiança dos desavisados até consumar sua real intenção. “Todo cuidado é pouco para não se deixar enganar, eis a vigília”, concluiu Maristela, que passou então a desconfiar de seus bons sentimentos, com receio de que ali estivessem plantadas as sementes do inimigo, como se fossem cavalos de Troia espirituais. No rastro dessa nova dúvida, outras mais surgiram: “assim como a escuridão impeliu o homem à luz, seria o diabo a fonte da qual nascia a necessidade de mobilização do bem?”; “se o bem se manifesta justamente para combater os maus, estando antes apenas em estado latente, teria o mal uma função positiva no avanço da vida?”; “sendo o mal inevitável elemento que desperta as consciências para o remédio do bem, o diabo não seria apenas um bode expiatório para aliviar o peso de nossa própria natureza? Afinal, a quem mais culparíamos pelas desgraças que criamos?” A espiral de novas objeções a devastaram.

Maristela buscou socorro mais uma vez em Guerra nas Estrelas; mas algo já havia mudado dentro de si. Obi-Wan morreu e Luke, outro mocinho, era filho de Darth Vader, personagem que agora ela via sem repulsas e até com alguma simpatia, por entrever naquela figura sinistra perdida entre os lados opostos da “força”, algo de humano e divino, um pouco dela mesma. E sua busca pela essência metafísica da vida recomeçou do nada.

A bala

BalaA bala zunia como se gritasse de emoção enquanto rasgava a frágil e incansável resistência do ar. Voava ríspida em busca de um anteparo. Balas precisam de um alvo, mesmo quando disparadas a esmo. O tiro para o alto, sem nada a mirar, aterroriza os projéteis por ser vazio de sentido. Sem explodir violentamente contra algo ou alguém, uma cápsula não passa de pérola jogada aos porcos, chumbo desperdiçado, árvore sem fruto. É uma compulsão de existir que ignora juízos morais. Estes, aliás, só aparecem na esteira dos fatos que dão algum tipo de razão ao viver, afinal, ninguém avalia o nada. Portanto, cada qual com suas aspirações. Pelo menos isso é o que passei a considerar depois do acontecido.

Não vi quando ela me perfurou, nem senti seu calor, mas o sangue que desceu após o nosso contato era quente e amenizava de modo aconchegante o frio repentino. Alguns vultos circulavam ao meu redor. Alguns estavam vivos, outros estavam mortos. Falavam (murmúrios) e gesticulavam como se estivessem tranquilos. Sei de mim que não havia esperança.

Soube (não lembro quando) que minha esposa sonhara encontrar comigo logo depois desse instante. No sonho eu queria dizer-lhe algo, mas dos meus lábios, que tremiam timidamente, nenhuma palavra saia. Então com ternura estendi-lhe as mãos para abraçá-la, em tocante cena. Quem me contou isso foi uma amiga dela, que eu nem conhecia, mas que me apareceu também em sonho (quando foi isso, meu Deus?). Em certos momentos, tudo parece sólido e etéreo ao mesmo tempo e as coisas parecem transitar entre o estado de vigília e a essência etérea dos sonhos. É a interseção entre vida e morte, a fusão traiçoeira da lembrança com a imaginação.

Ângela não me disse o seu nome, que de alguma forma eu intuía desde sempre. Com voz pausada puxou conversa.

– Oi. Joana me disse outro dia que sonhou com você. Até reclamou da sua roupa amarrotada.
– Ah… Sinto saudades dela. Onde vocês se conheceram?
– No colégio. Jardim de infância.
– Ela não veio?
– Não, infelizmente. Se pudéssemos escolher com quem sonhar ou em quais sonhos aparecer, seria muito mais prático. Mas não é assim que funciona. De qualquer modo, estou aqui.
– Se a vir, mande lembranças e diga que a aguardo por aqui. E que a amo e que vou bem… Quer dizer… Que apesar de estar mal, estou bem.
– Digo, sim, não se preocupe, se voltar a encontrá-la. Sabia que ela se casou?
– Foi? Já?
– Bom, na verdade ainda não aconteceu. É que sou precipitada. Quis dizer que ela vai se casar com um colega da igreja em breve. Como isso me ocorre em forma de  lembrança, me confundo.
– Mas nem vamos à igreja!
– Ela irá a partir de agora.
– Mas agora estou aqui, no chão.
– Bom, ela irá em breve.
– Como você sabe?
– O futuro marido, Jonas, um amigo em comum, me disse isso quando sonhei em que perambulávamos pela Península de Yamal, na Sibéria. Lá andam ocorrendo fenômenos geológicos estranhos.
– Não parece ter sentido. Que loucura!
– Sonhos são assim. No mais, é isso. Tenho que ir.
– Pra onde?

Ângela não respondeu e no instante seguinte, a mulher, de uns quarenta anos e quase obesa, de cabeça pequena, ombros curtos e quadril largo, já caminhava rente ao horizonte. De longe, suas formas ganharam contornos de uma silhueta suavemente arredondada, cônica, que lembrava uma bala não disparada.

Olhei para o lado e vi meu braço esquerdo estendido sobre o asfalto. Próximo aos dedos da mão alguns pares de sapato entrecortavam a luz do sol. Uns parados, outros caminhando. Virei para o outro lado e perto de mim avistei uma bala retorcida, estourada em cima, próxima à sarjeta. Mais atrás, reparei que havia um muro branco. E lembrei alguém dizer que a bala tinha me atravessado o corpo.

Cerrei a vista para focar a pequenina. A bala sorriu para mim. Um sorriso fraterno, embora alquebrado, quase sofrido, mas simpático. Havia dor e satisfação nele. Não era um sorriso de regozijo ou de ódio. Transbordava um contentamento sereno, típico de quem sente alívio pelo dever cumprido. E como se não houvesse mais vulto algum, ela disse:

– Nada foi em vão.
– O quê? Perguntei.
– Meu destino se fez em seu propósito. Tudo tem um motivo, uma razão. O destino é a busca por realizar aquilo o que inspira a existência.
– Não nasci para ser baleado…
– Como não? Balas como eu não existem para a prática de esporte ou caça.
– Poderia ter sido outro. E se eu não passasse por aqui hoje? Geralmente prefiro sair um pouco mais tarde. Como se faria o seu destino? Sua glória seria dar de cara para um muro.
– Dei sorte. Toda ação e toda iniciativa, no fim, se equilibram na tensão que existe entre sorte e azar.
– Não entendi. E não a culpo, se isso importa. De onde você veio?
– Nada mais interessa agora. Também não sei de onde vim. Estava escuro, conversávamos e, de repente, começamos a viagem. Eu era a segunda da fila. Depois tudo clareou como fogo. O resto foi velocidade e incandescência. Depois, uma parede. No meio do caminho, você.
– Mas quem foi que atirou? E por quê?
– Que importa?
– É… Deixa; seria uma preocupação a mais. Você está bem?
– Mais ou menos. Tive a impressão de ter visto vultos de outras balas, de vários calibres. Umas pareciam vivas, outras, chumbo descartado.
A bala silenciou. Os vultos sumiram. E o sangue, jorrando menos e coagulando ao redor pelo asfalto velho, já não mais aquecia.

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O Pesadelo

sombraSombras rápidas movem-se
No pesadelo lento e arrastado.
Cercam, confundem, escurecem.
Não posso tocá-las. Entretanto às sinto…

Ferozes,
Atrozes,
Em contínuas
Metamorfoses,
Formam imagens,
Às vezes disformes,
Outras nítidas,
Nítidas cirroses,
Horrendas necroses
Contaminando sem pudor
Em doses, doses, e mais doses
De obsessivas psicoses,
O incauto observador.

Sorrisos embaçados
Seguidos de carrancas sofridas
Em chagas ardentes fornidas
Pululam num frenesi cansado.

Agarro-me à inútil esperança de que a luz
desfaça as sombras com o amanhecer.

Mas eu nunca acordo aliviado.
E sigo a vida no pesadelo arrastado.

Apresentação

Meu nome é Wanderley Filho, sou historiador sem história e jornalista sem diploma. Trabalho como colunista de política de rádio, internet e televisão. Não entro em detalhes porque este espaço foi criado justamente para escapar dos limites do ofício profissional, pelo qual tenho grande paixão, mas que é focado em determinados fatos do cotidiano.

Aqui o objetivo é outro. Quero deixar registrado alguns escritos em abordagens diversas, testar alguns formatos e estilos, criar ficção e pensar, nelas, sobre interesses outros, mais pessoais. Brincar com a sintaxe, mas sem exotismos. Eu sempre busco a elegância, o que não significa apego cego às formalidades da letra ou do discurso, a ortodoxia que cheira a mofo. Um espaço para a poesia, esse modo de sentir que teima em sobreviver, e para os contos, uma paixão retomada recentemente.

Quem me conhece pode estranhar esse lado, digamos, diferente. Quem não conhece, seja bem-vindo. Agradeço a visita e espero criar laços de sintonia com pessoas que escrevem e leem porque gostam e precisam. Escrever, para mim, não é fácil, é luta, é revisão, é estar de frente a impasses, é técnica e emoção. É, sobretudo, uma necessidade e uma brincadeira.

Grande abraço,

Wanderley Filho.