Prisão

Lembro apenas de ver a criança contida por uma hesitação de timidez (ou seria medo?). Um menino que fitava o chão de cimento queimado, de roupas sujas e pés descalços. Bebi a água, sem pressa. No silêncio absoluto, na atmosfera cinzenta, algo de errado oprimia o tempo. O casal parecia ansioso para que eu me terminasse, mas fingia indiferença.

De repente, sem nada dizer, o menino correu e ganhou o terreiro empoeirado, áspero como o sertão seco. A mulher saiu logo em seguida, tropeçando em gritos espantosamente repugnantes. O homem tentou me distrair, mas continuei a assistir o garoto que corria e que, sem me ouvir, não sei como explicar, intuía meu pensamento:  “Vai!” —  disparei mentalmente, com todas as minhas forças. “Vai, foge, foge!”.

Notei que a sala e o piso me pareciam familiares, íntimos. O semblante severo do homem agora equivalia a uma sentença: não posso mais sair. A criança se fora e por isso tomaria o seu lugar naquela prisão. Ameacei fazer como o menino, mas mulher gritou, berrou e grunhiu em carrancas desprovidas de sons que inexplicavelmente feriam meus ouvidos. Transtornada, entornava uma garrafa de álcool, encharcando a própria roupa e depois cuspindo em mim, no chão, na mobília simples e no homem. Ria e chorava enquanto segurava, balançando entre espasmos no ventre, um fósforo com uma das mãos e uma caixa de fósforos com a outra. Pressenti que uma nova fuga precipitaria sobre o frio cinza daquele cenário o calor incinerante da vingança, ou da frustração, ou ainda da desolação. Sôfrego por atenção, o casal de estranhos não queria aquela solidão de inseguranças secretas, e por isso buscava inspirar medo nos seus prisioneiros, na esperança de receber, em troca, a mais profunda fidelidade. E ainda também hesitei de pavor.

Tudo isso não consumiu mais do que cinco segundos. E as cores iam cada vez mais perdendo a intensidade. Naquele instante, a dúvida instantânea me pareceu estranhamente ancestral: conseguiria sair dali antes que tudo se inflamasse em dor, chamas e fuligem?

Com espanto, vi em meio ao caos inaudível e desbotado, o menino que fugira, tranquilo junto a porta, a me observar admirado. Consegui ver a sua face de criança, seus olhos desprovidos de tudo, imensos. O menino era eu. E do resto não guardo mais a mínima memória.

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Fatos e crenças

Em busca do tempo Perdido, de Marcel Proust: quando crenças

Um amigo meu, jornalista gente boa, disparou à queima-roupa nas redes sociais:  “Não é normal que alguém diga que o Brasil está melhor!” . Tome um café e faça uma observação: “Ah, meu caro, existe uma multidão de pessoas que são normais e publicam uma mesma sentença mudando apenas o adjetivo:“ Não é possível que alguém diga que o Brasil está pior! O resto da conversa perdeu a graça e acabamos trocando gentilezas.

De todo modo, quando o assunto é política, e desde que não viva numa bolha, o sujeito disposto a ouvir sempre encontrará quem ache que a situação geral melhorou ou que piorou ( cada qual com suas razões ou interesses, não importa). Tem argumento para todos os gostos. Aliás, hoje em dia é preciso muito pouco para alguém formar opinião definitiva e inabalável sobre um ou todos os assuntos possíveis e impossíveis.

Eventualmente maiorias e minorias se formam para depois inverterem os papéis. Geralmente todos têm razão e se sobressai mesmo os que gritam mais alto. O alarde é a essência da democracia nesses tempos e… Deixa pra lá que já estou desviando o rumo da prosa.

Retomando o caminho, acabei concluindo que tendem a sentir melhoria nas coisas aqueles já achavam que as coisas iriam melhorar por causa dessa ou daquela gestão, da mesma forma que percebem piora os que apostavam desde antes que tudo iria piorar. Isso é na média. Claro que existem os que preferem duvidar das próprias certezas e os que preferem esperar para ver, mas esses não chamam a atenção. Ora, que graça tem a ponderação nesse mundo de “lacrações” e “mitagens”?

Terminei o café e voltei encher o copo. Queria fumar um cigarro para me imaginar numa esfumaçada redação dos anos 70, com o barulho das máquinas de escrever que lembram meu pai. A legislação atual e a asma me proíbem. Desolado, surpreendido por essas reminiscências, lembrei de uma frase de Proust que li uma noite dessas nas páginas iniciais de Em Busca do Tempo Perdido: “Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças”.

Pois é. Imagine isso no mundo em que nossas crenças vivem na fervura histérica das redes sociais. Coitado dos fatos.

À espera da Redenção

Anos de estudo em escolas particulares renomadas, graduação em Comunicação Social em concorrida universidade federal, especialização em Teorias da Comunicação e Imagem, mestrado em Mídias e Práticas Socioculturais — com louvor pela dissertação “A libertação do oprimido via redes sociais: a notícia além do sistema midiático capitalista” — , planos para o doutorado, nada disso poderia abalar a modéstia de Carlos Marques. Pelo contrário, quanto mais aprendia sobre as estruturas e superestruturas que definem as relações de dominação nas sociedades de massas, mais Carlos amava a multidão escrava que ignora o próprio estado de alienação. Seu engajamento político sempre foi assim, progressista, superior, repleto de amor pela humanidade e também pela fauna e flora universais.

O fato de ser ateu convicto não o impedia de ter inabalável fé (no sentido, digamos, quase religioso) em Ernesto Che Guevara, mesmo não sendo um entusiasta completo do regime cubano, pois seu espírito crítico aguçado levava-o a desconfiar que Fidel Castro talvez fosse demasiadamente apegado ao poder. Por analogia, via o mesmo dualismo em outra dupla revolucionária, brasileira, formada por José Dirceu, verdadeiro militante da igualdade, e Lula, genuíno representante da pureza proletária que acabou ludibriado pelos encantos do arrivismo, traído pela própria ingenuidade.

Sim, o nome de Carlos Marques foi uma homenagem aportuguesada dos seus pais ao mestre Karl Marx, admirado por ele desde a infância como um messias da História, portador da verdadeira Revelação. Sentimento jamais compartilhado e nem sequer cogitado, mesmo nas reuniões doutrinárias mais esfumaçantes, para não dar margem a eventuais acusações de traição ao pensamento materialista. Limitava-se em público a tratar o ídolo com disfarçada distância, sempre pelo insuspeito título filósofo, palavra que secretamente adquiria no íntimo de Carlos a condição mística de profeta, como se fossem sinônimos. Essa aparente contradição era facilmente solucionada pela lógica pragmática do jovem ativista: a fé na ciência, desde que se autodenomine de senso crítico, é prova de superioridade intelectual. Crença e ceticismo absolutos eram valores compatíveis e intercambiáveis aos espíritos mais conscientes do seu papel histórico, dizia a si mesmo.

O melhor amigo de Carlos Marques, por ironia do destino, era o ex-anarquista Jaques Kennedy (a mãe, fã das fotos de Jaqueline Kennedy, e que só tivera filhos homens, viu no caçula a última oportunidade para dar alguma sofisticação à família). Apesar do nome, Jaques tinha repulsa pelos Estados Unidos e em particular pelos Kennedy. Após a Copa do Mundo do Brasil, em 2014, o Kennedy maranhense criado em São Paulo aderiu ao movimento Black Block, empolgado com a oportunidade de quebrar vidraças de bancos privados. Após o fim das manifestações de rua, o jovem — que morava com os pais numa casa de três quartos, e que largara a faculdade de pedagogia já perto de se formar, por não aceitar ser engrenagem de um sistema educacional a serviço de um sistema opressor — pensava agora seriamente em se filiar ao movimento dos sem-teto. Aliás, um dos seus grandes tormentos era saber que a casa em que vivia tinha sido herança dos avós paternos. Viver ao abrigo de uma convenção burguesa detestável era um sacrifício que provava definitivamente sua determinação em socializar todas as moradias no futuro, quando ele e seu companheiro de ideais, juntos com outros tantos, conseguissem destruir algumas pilastras do capitalismo.

Acontece que um dia Carlos Marques se apaixonou e pouco tempo depois noivou com uma arquiteta recém-formada, que mesmo sendo filha de um famoso médico, tinha formidável consciência das razões para desigualdade social que impede a felicidade humana desde sempre. Os dois sabiam que tudo de ruim no mundo é culpa do dinheiro e da cobiça das classes dominantes. Era uma afinidade que alterava planos antigos com novos planos.

No entanto, apesar do entusiasmo, Carlos teve uma desagradável surpresa ao dar a notícia ao amigo após uma roda dialógica de discussões sobre o papel do intelectual orgânico no combate ao fascismo nas sociedades modernas (era período eleitoral), pois Jaques o acusou de romantismo pequeno burguês, egoísta e indiferente, sobretudo pelo fato de que o presente de casamento do sogro endinheirado fora um belo apartamento em área nobre da capital, enquanto a democracia corria riscos iminentes e milhões de pessoas voltavam a passar fome por causa de gente que esbanja o estilo de vida dos agora noivos.

Carlos respondeu com franqueza que começara recentemente a duvidar de certas crenças, que não conseguia mais ver sentido em tanta reclamação, se o mundo sempre fora o que é desde antes de existirem a moeda e a propriedade privada. Na ânsia de encerrar o debate conceitual que se seguiu, Carlos Marques chegou a suspeitar que Jaques Kennedy pudesse estar com ciúmes, o que lhe causou certo asco, pensamento prontamente rebatido pela lembrança de que não tinha, ou não deveria ter, preconceitos, contra o homossexualismo ou qualquer outra forma de amor entre seres vivos. Mesmo assim começaram uma discussão e Carlos disparou:

— Você está com inveja!
— Eu? Estou abrindo seus olhos. Veja como a ilusão da hipocrisia é perigosa! Se você não quer ver, problema seu…
— Quem você pensa que é, Jaques? Quer me dar lições de moral, sem nunca ter pego em armas contra as injustiças.
— Ora, você também! O maior risco que correu foi protestar nas redes sociais! E agora que a direita ameça os trabalhadores e as minorias pregando sandices como eficácia, mérito pessoal e redução do estado, você corre para a vida mansa. E vem me falar de coragem! Quem vai proteger os trabalhadores? Quem vai corroer por dentro as estruturas dessas mentiras?

Acuado e desafiado, Carlos apelou ao velho e bom argumento de autoridade, valendo-se dos seus títulos acadêmicos.

— Jaques, não dá pra discutir. Estamos em níveis diferentes de consciência sobre o mundo, apesar de defendermos a mesma classe. Minha luta, mais profunda, se dá no ringue da argumentação intelectual. Parece distante do mundo real pra você, mas é a partir disso que os movimentos se concretizam. Não vamos brigar. Eu te compreendo e prometo jamais esquecer de você quando chegar a hora de colocar as peças no tabuleiro da política.
— É, Carlos, você se acha superior. Vai subir na vida e depois renegar o passado. Já vi esse filme.
— Não! Pelo contrário. É com humildade e senso de dever que faço as coisas. O caminho é longo, mas outros companheiros já o fizeram. Sou apenas instrumento de um propósito maior, como você. Continuo apostando na criação do novo homem. As vantagens da vida social que tanto incomodam você não passam, jamais passarão, de um disfarce. Fica tranquilo. Eu seria orgulhoso, presunçoso e traidor se visse nisso tudo apenas um atalho para o conforto, para os bons salários dos cargos públicos e outros ganhos que conhecemos bem pelo exemplo de lideranças que hoje militam nas universidades, nas instituições mais fechadas, no legislativo e no judiciário. Se um dia eu for ministro, magistrado, reitor ou governante, será apenas pelo bem do povo que, assim como você, não percebe como a dialética funciona em certos meios. Saiba apenas que não esquecerei de você nessa caminhada. Nunca!

Beberam e fumaram entorpecentes. Se despediram afetuosamente na certeza de que eram os mocinhos. Carlos se casou, mas Jaques não foi padrinho. Tudo bem. As liturgias burguesas são oportunidades de infiltração que não podem ser desperdiçadas com vaidades pessoais. Saber esperar a redenção exige paciência.

“As Cabeças Trocadas”, de Thomas Mann, e o nosso amor pelas ilusões

Em As Cabeças Trocadas, adaptação de um antigo conto Hindu escrita em 1940 por Thomas Mann, percebemos como aquilo o que pode nos parecer óbvio e até tautológico, se bem observado, ganha inusitada complexidade, capaz de superar até mesmo as inacreditáveis reviravoltas de uma lenda indiana.

Seu corpo é você? Você é seu corpo? É possível ser sem ter? Ou ter o que não é? Querer atributos de outra pessoa é renegar, pelo meno em parte, os próprios atributos? São dúvidas que permeiam a “nouvelle”, em que dois amigos disputam o amor de uma linda jovem, dividida entre qualidades de um e do outro. Situação que os dois compreendem, uma vez que estão cientes dessas diferenças. Mann explica:

“A amizade dos dois jovens baseava-se nas diferenças de seus sentimentos relativos ao eu e ao meu. Os de um ansiavam pelos do outro, pois a encarnação cria a individualização cria a individualização; a individualização causa diversidade; a diversidade provoca a comparação; da comparação nasce a admiração; e esta, finalmente, produz de troca e união.”

A história se desenvolve em meio a mitos religiosos e alguns conceitos filosóficos, analisados com refinada ironia, como uma espécie de contraponto racional ao desvario das paixões humanas. A certa altura, a deusa Maya revela cansaço com as distorções dos que “que enxergam a vida como uma doença”, atribuindo-lhe vontades que jamais cultivara.

E olha que essas são questões laterais, abordadas de forma rápida nesse pequeno livro. O ponto central do texto está na reflexão sobre a identidade e o apego às aparências. Em algumas passagens, o autor, figura onisciente da narrativa, fala sobre os impasses das personagens (grifos meus):

“Não é por acaso que a Volúpia, sagaz esposa do Deus do Amor, foi apelidada de “Dotada de Maya”, pois é ela quem torna encantadora e desejável toda aparência, ou melhor, faz com que assim apareça. Ora, a palavra “aparência” contém em si o elemento sensorial do mero “parecer”, e este, por sua vez, anda ligado à ideia de ilusão e formosura. (…) [O homem] em vez de procurar o desencantamento, anseia por embriaguez e cobiça, temendo antes de mais nada chegar a ser desiludido, isto é, desprovido de ilusões”.

Esse é o Thomas Mann de “A Montanha Mágica” acenando em meio ao relato pitoresco de uma lenda oriental. Jamais me ocorrera que o medo da desilusão é o reflexo espelhado do amor que temos pelas ilusões. Convenientemente, confundimos desilusão com decepção com os outros, quando, na verdade, é desapontamento com nós mesmos, que nos iludimos sobre a natureza de nossos próprios sentimentos.

Em outra passagem, ao discorrer sobre a relação entre a jovem e seus pretendentes, presos a uma fantástica e mística armadilha, o autor dispara, com a elegância de sempre:

“Há uma beleza espiritual e outra que fala aos sentidos. Há, contudo, certas pessoas que querem restringir o belo exclusivamente ao campo dos sentidos e dele apartar completamente o espiritual, com o resultado de uma cisão sistemática entre o espírito e a beleza. (…) Mas dessa doutrina da felicidade conclui-se logo que entre o belo e o espírito não há a mesma oposição que separa o belo do feio (…). O espiritual não é sinônimo do feio ou, pelo menos, não o é necessariamente, pois reveste-se de beleza, ao reconhecer e amar o belo. Esse sentimento manifesta-se sob a forma de beleza espiritual e não é, no fundo, inteiramente absurdo nem desprovido de esperança, porque, pela lei da atração dos opostos, o belo também anseia pelo espiritual, admirando-o e acolhendo-lhe com agrado a corte. Nosso mundo não está constituído de tal maneira que ao espírito caiba amar coisas espirituais e à beleza apenas o belo. O contraste existente entre os dois deixa perceber, com uma nitidez ao mesmo tempo espiritual e bela, que a meta do mundo é a união de espírito e beleza, isto é, a perfeição e já não a felicidade cindida. E nossa história atual [o triângulo amoroso do livro] nada mais é que um exemplo das complicações e dos reveses ocorridos durante a busca de tal meta”.

Enxergar com tanta precisão, a partir dos desencontros da lenda indiana, a sôfrega tentativa humana, talvez ilusória (olha a Deusa Maya), de conciliar desejo e paz interior é Thomas Mann na veia.

No posfácio, o leitor é informado de que o autor gostava de intercalar suas obras mais robustas, e volumosas, com outras mais leves e rápidas, como “As cabeças trocadas”, para descansar a mente. Penso que são ideais como introdução aos que desejam entrar nesse universo. Uma amostra do potencial espiritual (inteligência) e sensorial (estilo), que o autor conseguiu unir em sua obra.

Sincronicidade

Mário acordou mais cedo que o habitual naquela manhã de sexta-feira, animado com a proximidade do final de semana. Cantarolou e preparou com esmero o café.

Maria despertou-se assustada e de imediato soube que estava atrasada para as obrigações do dia, mais um, na longa semana de trabalho que se encerrava, e que de tão intensa, se prolongaria ainda por metade do sábado. O café matinal precisou ser sacrificado.

Mário barbeou-se e aproveitou com deleite o banho morno. Escolheu uma roupa mais despojada que de costume para ir ao escritório. Sem pressa, leu o noticiário e verificou algumas contas. Tudo em ordem.

Maria correu ao chuveiro escaldante e depois secou o cabelo sem muito capricho. Como sempre hesitou na escolha das peças para vestir-se, em dúvida com as combinações de cores e estilos, essas coisas. Mesmo assim, consumiu metade do tempo normalmente dedicado a esse desafio diário. Maquiagem básica.

Mário assistiu com um sorriso a mulher e as crianças arrumando-se. Excepcionalmente, hoje, justamente hoje, ela as levaria à escola, aproveitando a coincidência, se podemos chamar assim, de ir para aqueles lados.

Maria evitou o berço da filha para não despertá-la após a noite inquieta. Sem tempo para manobrar os carros na garagem, pegou o do marido, estacionado atrás do seu, como faziam eventualmente nessas ocasiões de correria, para ganhar em seguida a rua, verificando a papelada para a reunião enquanto dirigia.

Mário entrou no carro e ligou o rádio. Calmo, ajustou o ar condicionado e verificou os espelhos. Saiu devagar, saboreando o prazer de dirigir, sentindo as ondulações do asfalto, a ergonomia do banco.

Maria precisava acelerar para evitar o constrangimento de chegar atrasada. Sem conseguir sincronizar o celular com o rádio, operava manualmente o aparelho para ouvir mensagens do grupo de trabalho. Sete ao todo. Aproveitou o semáforo fechado para ouvir a primeira. Sinal demorado, mas inesperadamente sem fila naquele horário. Estranho.

Mário pôs uma música, selecionada ao acaso: soou a Sonata nº 2, de Chopin, Opus 35, ao piano por Yundi Li. Cuidadoso, preferiu encostar o carro para mudar do rádio para o arquivo digital. Não era hábito, mas era cedo.

Maria atrapalhou-se com o segundo recado da lista de mensagens, uma voz feminina: “Já é tarde!”. O celular caiu ao chão.

Mário aumentou o volume. Acelerou para sentir o motor.

Maria perdeu alguns instantes tateando o piso.

Mário olhou para o retrovisor.

Maria avançou a preferencial.

Levados ao mesmo hospital, partiram deste mundo às 11 horas e 37 minutos. Não se viram, nunca saberão um do outro. E ainda assim, na dança silenciosa dos segundos, cada atraso, cada volta, cada etapa adiantada, cada história de vida, cada decisão banal, levou-os ao último encontro, como se predestinados para a mais perfeita das sincronias entre os acasos do cotidiano.

A felicidade entre os anos que nascem e morrem

Ano Novo! Vida nova! Tempo de refletir e planejar, de agradecer e renovar as esperanças, essas coisas. Mas agora é diferente. A enfermidade da esposa abateu-lhe o ânimo para os festejos de fim de ano, com aquele típico estado de espírito que mistura o frenesi dos preparativos paras as ceias, os presentes, a escolha dos locais para as comemorações, a procura por amigos e familiares para as saudações de Réveillon, todas essas pequenas e gostosas emoções que rodeiam o período. Nada disso não se manifestou assim neste ano.

Na verdade aconteceu o contrário, pois nesses dias acompanhantes e pacientes ficam mais solitários do que nunca no hospitais. A calmaria dos corredores se intensifica quanto mais se aproximam os tradicionais festejos. No silêncio asséptico lembranças se amontoam e lamentos perdem a força diante da indiferença biológica das doenças terminais e da redução de visitantes e plantonistas em circulação. Tudo é espera, muito embora não se tenha por quem ou pelo que esperar.

Assim, Aristides e Lucélia passavam as horas que avançam inexoravelmente rumo à mudança de ano, alheias ao mundo e às vontades. Naquele instante ela acordou e sorriu com algum esforço, para logo em seguida voltar a dormir, a tempo ainda de sentir-se coberta de cuidados. Aristides desligou a televisão. Uma enfermeira passou para trocar o soro e desejou-lhe felicidades. Ele retribuiu com um gesto simpático, ainda que estivesse impossibilitado até de se imaginar no ano novo. Tudo em sua alma se concentra no agora. Absorto, olha para Lucélia adormecida e percebe mais uma vez que mesmo castigada pela doença, ela não perdera aquele semblante que o encantou um dia e que transcende as feições tangíveis, perfeitamente ajustado à sua índole cativante, que continua a transmitir sensações de paz e coragem, força e delicadeza.

Aproximou-se de seu rosto: “Feliz ano novo, meu amor”. Ela abriu os olhos, mas nada disse. Concentrou seus esforços em mirá-lo, para responder ao companheiro, sem palavras, sem lágrimas, sem revolta ou desespero, apenas com o olhar, “feliz ano novo, meu amor”. Não precisavam mais do que isso e sabiam, por experiência, que a felicidade não estava nas datas, mas em poder dividir um com o outro partes das suas existências.

Aristides segurou a mão de Lucélia. Ainda faltavam algumas horas para a meia-noite. Juntos, intimamente, conscientes de toda a cumplicidade que partilhavam, agradeceram a oportunidade de estar juntos mais uma vez no presente, testemunhando mais um ano que nasce e contabilizando na sua história outro que em breve assumirá lugar no seu lugar no passado. Um passado deles que o futuro, para onde quer que os leve, jamais poderá apagar.

Os novos comensais*

E os outros homens, que não foram mortos por estas pragas, nem assim se arrependeram das obras de suas mãos, parar não deixarem de adorar os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar.
Apocalipse 9:20

Desde os primeiros minutos Janira ignorou a presença dos comensais ao redor (os mesmos de sempre), absorta na urgência de se desconectar do mundo físico para responder, pelo celular, aos chamados das redes sociais. Curiosamente, numa sincronia aparentemente espontânea e harmônica, todos pareciam empenhados na mesma tarefa. Apesar de alguns rostos serem vagamente familiares por causa rotina no mesmo restaurante, eram completos estranhos uns para o outros.

A comida simples exalava um vapor inodoro, enquanto textos, vídeos e fotos eram conferidos em meio a sorrisos solitários. Vez por outra, olhares desconfiados eram fortuitamente lançados para fora da tela, em ato instintivo de preservação da privacidade. Raramente essas espiadelas cruzavam caminhos, e quando isso acontecia, não significava intenção de comunicação direta. Era somente acaso prontamente esquecido. Respostas automatizadas, entremeadas por frases feitas e fotos cuidadosamente selecionadas, eram disparadas com profunda ânsia de aceitação. Janira conferia, quase aflita, a repercussão das suas postagens, à procura de consentimentos e elogios. Ser ignorada ou pouco percebida era sempre o pior dos medos, algo próximo a sensação de isolamento absoluto. Tais compulsões a mantinham alheia, com o passar do tempo, daqueles que desde o início dividiam entre si o amplo refeitório. Não que isso fosse um problema, pois nada que dissesse respeito aos seus companheiros de momento poderia ser do seu interesse, sentimento respeitado em bloco, com todos igualmente de olhos baixos, mirando a luminescência da tela lisa, borrada de digitais gordurosas.

O silêncio só era perturbado pelo ocasional barulho dos talheres ou de poucos áudios reproduzidos em volume inadequado por usuários desprevenidos. às vezes rápidas gargalhadas rasgavam a formalidade do ambiente, em razão de vídeos e piadas nas redes sociais (reação reprovada pela maioria, por sugerir uma desagradável e inútil necessidade de chamar a atenção). Janira aproveitava essas breves interrupções para depositar na boca, em duas ou três porções, o alimento sem gosto, em meio ao entretenimento.

O fato é que, mesmo juntos, de ombros caídos, com cabeças inclinadas e polegares saltitando freneticamente, todos queriam passar mutuamente despercebidos. É por isso que nada poderia ser mais chato do que alguém disposto a puxar conversa, como o sujeito que tentou fazer considerações sobre as supostas inconveniências de um garçom novato (Murilo Eugênio, segundo o crachá). É que o rapaz, eventualmente, interromperia alguém com perguntas sobre a opinião dos clientes a respeito da qualidade do atendimento, essas chateações. Contrariada e profundamente desinteressada, Janira interrompeu sua imersão, elevou o rosto e esboçou um sorriso deliberadamente forçado, de lábios colados, para imediatamente voltar os olhos ao aparelho, sinalizando ao seu, digamos assim, interlocutor, que este agia tal e qual o garçom criticado. Disposto a compensar o aborrecimento que causara (e piorando a situação), o homem insistiu na abordagem e apresentou-se como Herbert. Mas o pior estava por vir: Janira ainda tentava digerir a perplexidade com tanta insensatez, quando foi surpreendida, no instante seguinte, e sem o menor sinal de alerta, pela ação abrupta de muitos outros comensais — dezenas, aparentemente — estapeando-a sem dó, enquanto gritavam palavras surdas.

Além dos tapas, seu rosto foi alvo de cuspes e copos d’água que pareciam afogá-la. Quis levantar-se, mas não conseguiu. O peso da agressão era incomensurável. Para seu assombro, nas poucas chances de voltar a ficar de pé, Janira permaneceu imóvel, inteiramente paralisada, incapaz até de proteger-se com os braços. Sua vontade já não lhe produzia os efeitos desejados. Sentindo que morreria ali sem nunca saber a razão para tudo aquilo, foi mais uma vez surpreendida, quando as mãos sumiram e seus donos retornaram impassíveis aos lugares de antes para receberem a sobremesa, embora os pratos principais permanecessem intocados. Para Janira, os indivíduos da turba não eram mais os comensais alheios ao mundo, os antigos, mas uns novos, os “incomensais” (na sua mente, como se desculpasse por um pecado gramatical, pedia licença para improvisar o prefixo latino, uma forma de apontar nos seus agressores a negação de toda civilidade naquela circunstância singular). “Eram loucos”, não havia outra sentença. Sentada no chão, continuou a ouvir em seu íntimo, as próprias ponderações: “Se foram humanos um dia, deixaram de sê-lo para agirem deliberada e inexplicavelmente como inumanos” (o prefixo de negação pareceu-lhe outra vez estranhamente apropriado, reflexo de sua perplexidade).

Janira tentou escapar por um corredor estreito no qual havia reparado antes e que levava a uma sala sem janelas. Quis trancar-se em busca de proteção, mas o cômodo não tinha portas. Ao voltar pelo mesmo caminho, esbarrou em Murilo, o garçom, que em vão tentou ajudá-la, porém, som algum lhe saia da boca. Deixou-o. Desesperada para fugir daquele pesadelo, perdida num labirinto de corredores imensos e sem saída, espantou-se ao notar que retornara ao salão central, que por sua vez, para sua incredulidade, estava vazio. Nada. Nem comensais, nem pratos, nem loucos, nada.

Nesse momento o seu celular começou a vibrar ininterruptamente. Eram os agressores de minutos atrás solicitando-lhe amizade em diversas redes. Desorientada, Janira olhou para o céu e viu o teto do restaurante escurecer, para logo em seguida clarear-se numa profusão de luzes difusas. No chão, milhares de pontos luminosos acendiam sem parar em formas e cores mutantes. O refeitório perdeu toda a materialidade para se transformar na projeção de uma espécie de salão comprido, com ela, Janira, bem no meio. Pareceu-lhe, por um instante, estar dentro de um celular. Mirando de novo o alto, Janira distinguiu uma imagem gigantesca ganhando nitidez, aos poucos: viu então a si mesma, lá fora do teto de vidro com manchas gordurosas, ampliada, enorme, e com os polegares saltitantes ainda maiores do que a cabeça gigante, em razão da perspectiva, como se ela digitasse freneticamente desde cima, algo no ar, de ombros caídos e expressão vazia no rosto.

*Texto escrito após a leitura do conto “Os comensais”, de Murilo Rubião.